Marketa Lazarová, de Frantisek Vlácil

Da violência, do grito, ainda se produz um sussurro inquietante: as personagens de Marketa Lazarová falam como se confessassem algo no ouvido do público, embrenhadas no cristianismo. Em outros momentos, vale notar, reproduzem suas vozes em eco, o que torna a experiência ainda mais perturbadora e delirante.

Lançado em 1967, o filme nem sempre se deixa entender. É um épico sujo de imagens límpidas, cheio de contrastes curiosos, o que só reforça o duelo entre paganismo e cristianismo, no momento de transformação em que se situa. O casamento da selvageria do filho de um clã com a forma angelical da filha do outro, o rival, sela esse encontro.

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A personagem-título pouco fala. Observa. Vive para presenciar os conflitos de seu pai, que pensa em colocá-la, então pura, em um convento. A este se soma a fila de freiras que percorrem o monte, rumo à sua porta, enquanto Marketa, ainda livre das vestes religiosas, aproxima-se com uma pomba à mão, com o seio à mostra.

A freira aceita a oferenda e se afasta. Ainda não é hora de Marketa entrar no local. À frente, seu pai leva-a ao convento e depois retorna com a menina ao clã. Ainda não é a hora de Marketa. E não demora nada para que seja raptada pelo grupo rival: naquele mesmo dia, ao voltar para castelo, o pai, Lazar (Michal Kozuch), é rendido pelos carniceiros de Kozlík (Josef Kemr) e pregado na porta de seu castelo.

Os inimigos, nesse e em demais gestos, revelam repúdio à religiosidade do homem. Antes, quando se encontram à porta de uma diligência saqueada, Lazar é obrigado a orar, momento em que uma luz forte, ao fundo, contribui para mostrar, ainda cedo, o lado mágico desse grande filme tcheco, do período de sua fértil nova onda.

Marketa, sabe-se, está condenada: não há outro caminho à inocente senão casar com o carrasco. O filme, por sua vez, não toma partido: nessa transição do paganismo ao cristianismo, bem e mal estão fundidos, seja na estranheza de Kozlík, seja na aparente falsidade do religioso Lazar, a quem a filha apenas serve enquanto pura.

Mas qual a pureza que ainda resta a esse universo? É certo que Marketa, violada ou não, casada ou não, mantém seu mistério, sua honestidade, sua imagem de santa a atravessar os campos de batalha do período medieval. Assistiu à discórdia dos homens, atacada por ecos e sussurros dos combatentes com mãos sujas de sangue.

O diretor Frantisek Vlácil trancafia o público em closes e planos detalhe. Não raro a câmera está presa à mão, serve ao olhar das personagens, subjetiva, e ao tranco das corridas, dos perseguidos, das lutas com faca ou espada. A estilização dá vez à suposta bagunça, à forma febril como o filme é tomado.

De clã em clã, as personagens não cansam de duelar. A certa altura surgem um capitão e seus homens, todos a serviço do rei. O clã de Kozlík entrará em confronto com essas autoridades, a monarquia representada pelo cavaleiro que legitima a união entre Marketa, interpretada pela bela Magda Vásáryová, e o violento Mikolás (Frantisek Velecký).

Nessa paisagem infernal sob a neve ou sob o sol, em diferentes estações, correm lobos e freiras. No lamaçal, um cavalo atolado luta para se locomover, o que ajuda a entender um filme no qual as personagens não saem do mesmo lugar.

(Idem, Frantisek Vlácil, 1967)

Nota: ★★★★☆

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