Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

Quem dá as respostas, com perguntas, é a meia-irmã da protagonista, uma adolescente homossexual. Isso ocorre na segunda metade de Como Nossos Pais. Seu questionamento explica a obra de Laís Bodanzky: até quando Rosa (Maria Ribeiro) viverá uma vida de hipocrisia, na velha composição familiar em que a mulher vê-se aprisionada?

O espectador atento fará outra pergunta: por que Rosa demora tanto para pensar em escapar, em buscar sua liberdade e, ao fim, aposentar seu tênis All Star? O filme situa-se em um momento-chave: é quando a protagonista percebe que o peso sobre seus ombros chegou ao limite do suportável – e que ser essa mulher que todos esperam talvez não seja o melhor, ou nunca tenha sido. Sofre sem encontrar respostas fáceis.

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O filme de Bodanzky não permite saídas. É real, às vezes terno, raramente explosivo. É uma crônica do paulistano que descobriu as ciclovias, amarrado à vida sofisticada e aos companheiros intelectuais, preso à selva de pedras e que só encontra um momento para relaxar no interior do supermercado, no espaço de degustação de vinho.

A Rosa é feita uma importante revelação, ainda no início: sua mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), informa, na presença de outros parentes, que ela é filha de outro homem, não do pai que a criou. A primeira reação de Rosa é de repulsa à mãe. Como poderia, por tanto tempo, ter escondido o fato? Ou como poderia viver com tal mentira?

A família tradicional, nos moldes patriarcais e religiosos ainda vigentes, é golpeada. É colocada em xeque. Rosa percebe em si mesma a necessidade de fuga da mãe, quando decidiu ter outro homem, um amante, em viagem para Cuba. E lembra que seu pai de criação (Jorge Mautner) talvez não tenha sido o melhor marido.

Rosa – com tanto peso, com o trabalho que não deseja, com um marido inconfiável, com a mãe à beira da morte e próxima ao pai que a gerou – entende que talvez não conheça a si mesma. Ou que chegou a hora de se transformar, de transgredir, como diz a mãe sobre a entrega a outro homem. A simples felicidade de se renovar, talvez.

É nesse ponto que tudo fica nebuloso: ainda que, por momentos, escape a um belo homem, pai de uma menina que estuda na escola de suas filhas, Rosa tem de voltar para casa. Tem de encarar a mesma vida, a formação que se impõe. Tem de lutar contra um marido (Paulo Vilhena) que se recusa a dar respostas, a quem tudo funciona.

A mulher fica em casa para salvar o dia, a família, para criar as filhas – e ainda precisa encontrar tempo para o trabalho. Não há tempo sequer para ter tesão. O homem, que passa seu tempo fazendo o que gosta, estudando os índios, retorna ao lar com tesão à flor da pele: para ele basta se deitar e partir para o ato. É fácil ser homem.

Em roteiro escrito com Luiz Bolognesi, Bodanzky reproduz o universo feminino – mais do que fazer um filme feminista – a partir de uma personagem perto dos 40 anos. Essa mulher com frequência é vista a distância. Os demais são vistos a distância. A câmera coloca-se em outros cômodos, em um ponto que nem sempre oferece acesso.

Como Nossos Pais, por isso, assume o recuo, nunca a indiferença. Não permite entender com facilidade o que move suas personagens. O olhar de Rosa emite as dúvidas da mulher que luta para se manter sobre seu All Star, para viver o casamento perdido e a família tradicional, para saber quem é de verdade, reflexo ou não de seus pais.

(Idem, Laís Bodanzky, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Filme da Minha Vida, de Selton Mello

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