O Cidadão Ilustre, de Gastón Duprat e Mariano Cohn

À exceção dos celulares, das caminhonetes robustas e do lago seco, é provável que pouco ou nada mudou em Salas, a pequena cidade na qual o protagonista nasceu. Cidade legada ao esquecimento não fosse ele um escritor renomado, prêmio Nobel, agora de volta às suas ruas de terra, ao contato com pessoas ávidas por novidades.

O escritor em questão, no engraçado O Cidadão Ilustre, é Daniel Mantovani (Oscar Martínez). As características esperadas estão todas ali: intelectual desanimado com a vida, solitário, a negar os milhares de convites que sua assessora apresenta-lhe na sala de sua mansão, em Barcelona, na Europa à qual fugiu para viver.

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Do povo argentino de Salas ficaram os livros, obras que o tornaram famoso, e talvez pequenas lembranças dos tipos involuntariamente engraçados. Quando o espectador depara-se com estes, fácil é compreender a matéria-prima das obras fictícias de Mantovani: bastaria um pouco de imaginação para se atingir o universo mágico da literatura.

O retorno, contudo, oferece novo drama: o nomeado “cidadão ilustre” da pequena cidade é obrigado a encarar a si mesmo, seu seio, os seres que formam seu passado, o sentimento de pertencer enquanto não se pertence, de sentir o ambiente que um dia agarrou e que, por diferentes motivos ao longo dessa história, passará a odiar.

É o que dói mais em meio a tanta graça, ou tanta comédia discreta, não raro chamada de “inteligente”: é um filme sobre alguém que não se reconhece mais em seu próprio passado. No fundo, Mantovani descobre que não tem mais nada, que tudo o que dá vida a esse pequeno povoado resume-se, em seu caso, à matéria da ficção.

O escritor, esse ser triste e cínico que não reconhece a realidade. Ao fim, e não por acaso, dirá que a verdade não existe durante uma coletiva de imprensa. Tudo depende de quem vê, de quem interpreta. A observação, em certa medida, confere absolvição às pessoas que não souberam lidar com a volta do “estrangeiro” à pequena Salas.

No fundo, ilustres são os outros. São essas pessoas que vivem em sua própria ficção, no emaranhado dos rituais provincianos e típicos de pequenas cidades. Dá para compreender por que Mantovani decidiu, décadas antes, escapar dali – e dá para entender por que decidiu retornar. O cheiro do passado é sedutor, tem encanto particular.

Comum à maioria, o ritual dá vez à comédia. Algo fora do lugar. A alegria de ter alguém de fora, o “estrangeiro”, por aquelas ruas e praças. Mantovani desfila em carro aberto ao lado da rainha do município, recebe sua medalha, ganha um busto branco na praça. Mito em vida para pessoas que talvez nunca tenham lido uma só palavra que escreveu.

Encara também os velhos amigos, os velhos amores. Tudo mudou, ou nada. Muito pouco. Os bons conterrâneos a certa altura revelam-se ingratos, em situações à altura de um Buñuel, com o sarcasmo no tom da comédia agradável, sem excessos. Nem sempre é fácil interpretar, aceitar as carícias ou mesmo as ofensas quando se é um “cidadão ilustre”.

Os diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn realizaram antes o ótimo O Homem ao Lado, também sobre o choque com o diferente. A história de um homem surpreendido pela janela aberta no apartamento ao lado, o do vizinho bruto e boçal. A janela equivale à descoberta – e ao receio que isso causa – do olhar do outro, o medo de ser visto, de se deixar revelar.

Não é fácil manter certa honestidade intelectual em meio aos afagos de um prefeito como todos os outros, de pessoas que estavam tão próximas, agora tão distantes. Mantovani escapa de uma cidade simples e um pouco opressora para, de novo, conseguir escrever. Ao povo de Salas, deve tudo: uma amostra exata do comportamento humano.

(El ciudadano ilustre, Gastón Duprat, Mariano Cohn, 2016)

Nota: ★★★★☆

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