Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende

Em meio a tanto conservadorismo, ver Gretchen rebolar ao som da “Conga” em um programa infantil pode parecer assustador, uma aberração. O sucesso dessas reboladas, nos anos 80, em um programa do tipo, com plateia forrada de meninos e meninas em vermelho e amarelo, dá a ideia da mudança dos tempos. O tesão a serviço da audiência.

É o que resume Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende: a mescla de sacanagem com ingenuidade. A começar pela sacanagem que o palhaço leva para a vida, para suas escapadas, para sua vontade de deixar explodir o adulto enquanto acena às crianças que se divertem e dançam ao seu redor, no estúdio, no auditório.

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O tempo é verdadeiro. Cores, maquiagem, belas mulheres, vodca, cocaína. Bingo, na pele Vladimir Brichta, é a releitura do Bozo, a personagem verdadeira e importada. O ator por trás da máscara entende que apenas o toque brasileiro – a sacanagem, talvez, ou mesmo a improvisação – poderia fazê-la caber ao telespectador local.

O Brasil, sobretudo, é verdadeiro: é necessário a emergência de um palhaço para deixar ver os defeitos – ou os exageros, ou o reflexo que tanto se nega – de uma nação que gosta de cores, dança, da “Conga” e da anarquia que o maquiado representa. O Bingo de Brichta fala às crianças para dar vazão ao adulto, em um filme para adultos.

Talvez não seja acaso a inclinação ao vício das drogas no momento em que ganha sucesso. A personagem, vê-se, não é movida apenas por ele. Necessita da máscara, do palco, precisa ser outro para se realizar. Há no filme algum toque de Norma Desmond, a importância de permanecer sob os holofotes, de não perder o público de vista.

Quando o ator sai de cena e deixa o palhaço para outro intérprete, mais tarde, ele reencontra o palco no espaço em que não pode se drogar, o que restou à vítima dos excessos: a igreja. Termina saudando seu novo público fiel, a plateia de adultos infantilizados em busca de liderança, de salvação, de um deus para consolo.

É o que há de mais interessante nesse filme brasileiro. O efeito anestesiador que a igreja oferece ao palhaço – e que dá as caras, antes, na personagem de Leandra Leal, a religiosa cujos cabelos presos fornecem a medida ideal de seu sufocamento – faz pensar em uma nação que insiste em caminhar aos bons modos, à contramão da safadeza.

Fazer televisão, acredita o ator Augusto Mendes (Brichta), é dar doses diárias de safadeza ao telespectador, longe dos textos bobos, fáceis, do remédio matinal que adultos consomem em programas sob medida. As crianças entendem Bingo, fazem dele um sucesso. O filme traduz esse sentimento: a vontade de dizer e fazer o que quiser.

A parte dramática enfraquece a obra. Há aqui o filho, a criança que quer o pai, não a personagem. Liga para o pai que não aparece em seu aniversário, ao homem perdido entre garrafas de bebida e porções de cocaína, entre belas mulheres no camarim e o espaço social – qualquer um – que pode servir de pista de dança. Basta a música.

Outra personagem que leva a pensar em Norma Desmond é a mãe do protagonista, atriz veterana, interpretada por Ana Lúcia Torre. Com idade avançada, resta à mulher o papel de jurada em programas de auditório. Sonha com o retorno, com um novo papel. Em momento triste, o filho aceita “jogar” com ela: finge ser uma personagem para que a mãe finja – ou acredite – ser uma baronesa, em alguma novela de época. Revela assim o que move o filme de Rezende: a vida como interpretação, espetáculo contínuo.

(Idem, Daniel Rezende, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Filme da Minha Vida, de Selton Mello

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