Coração Selvagem, de David Lynch

A confirmação de que David Lynch está levando o espectador a qualquer lugar exceto ao esperado é o que torna Coração Selvagem uma delícia. Nas pequenas situações – como na empolgação, nos chutes e na dança do casal – ou no bolo todo – na trama de perseguição que logo esfarela –, não se pode esperar nada convencional.

Esse filme de estrada inclui um casal em fuga, mas não se sabe para onde. Talvez para algum paraíso perdido, para a família que não tiveram, para o sonho dos tijolinhos amarelos de O Mágico de Oz – clássico sobre o qual a obra de Lynch debruça-se em paralelos e citações, seja pela aparição de uma bruxa má ou de uma bruxa bondosa.

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E talvez aqui com uma nova Dorothy, interpretada com força por Laura Dern, menina distante de Oz. Sua vida é recheada de problemas: sofreu um estupro, perdeu o pai em um incêndio e é filha de uma mãe dominadora. Em um rapaz qualquer – louco por aventuras, violento, fã de Elvis Presley – ela encontra sua forma de escapar.

Ele, vivido por Nicolas Cage, é preso depois matar um homem enviado pela mãe da amada, ainda nos primeiros instantes, ao esmagar seu crânio ao olhar da namorada. O sangue da abertura aponta às intenções de Lynch: a violência vem em doses exageradas, de maneira abrupta, estranha, a atrapalhar os planos do casal.

A essa relação familiar unem-se alguns mafiosos. Também o detetive apático de Harry Dean Stanton, ou a mulher misteriosa, de peruca loura, que veste roupas de couro e se posta em um casebre aos pedaços no meio do deserto, na pela de Isabella Rossellini, a musa do filme anterior de Lynch e talvez sua obra máxima, Veludo Azul.

Como no filme anterior, Coração Selvagem investiga o subterrâneo da sociedade americana. Recorre às moscas, a outros insetos, aos seres que emergem em meio à podridão, sobre o vômito da menina loura que termina uma mulher formada, grávida, em um quarto de hotel barato nos confins dos Estados Unidos. Talvez o espectador relute em acreditar que tal vômito – cujo mau cheiro é citado por mais de uma personagem – pertença mesmo à figura de Dern, a garota perseguida pela mãe.

É, para Lynch, a recriação de O Mágico de Oz como filme de terror: a mulher que se transfigura em bruxa, do mundo real ao imaginário, não está mais fora da casa da menina que cai na estrada. Está agora entre sua família, é sua própria mãe (Diane Ladd). E ora ou outra é possível ver as reações dessa mulher sozinha e desesperada, como no momento em que pinta a face e as mãos com batom vermelho.

Tal cor é constante ao longo do filme, do fogo na casa de Lula (Dern) às cenas de sexo nas quais Lynch parece não se importar em imprimir falsidade. A relação erótica entre o casal dá-se muito mais pelos olhares e expressões – em amor louco – do que pelo contato real. Vivem pelo desejo, alheios (ou quase) à realidade.

Surge também, a certa altura, um enlouquecido Willem Dafoe. De gengiva à vista, dentes pequenos e escuros, monstruoso. É quando se percebe que tudo não passa de uma viagem à liberação dos desejos, uma mistura de repulsa e excitação, como na cena em que Lula e a personagem de Dafoe estão sozinhas no quarto do hotel.

É quando ele tenta arrancar da moça uma breve confissão de seu desejo, talvez apenas um sussurro, ao passo que ela vê-se desarmada perto desse ser repugnante. Ninguém duvida da repulsa dela. É bom não duvidar de que ali exista também algum prazer oculto e inesperado, em comunhão com o universo subterrâneo de Lynch.

(Wild at Heart, David Lynch, 1990)

Nota: ★★★★☆

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