Logan, de James Mangold

Levou certo tempo para que os filmes da Marvel ficassem adultos e mais violentos. Ou obscuros. Ou, como se vê em Logan, até com contornos de faroeste. E não há gênero que remeta tão bem ao passado em cacos, ao mesmo tempo ao futuro no qual a América é uma terra ainda a forjar suas leis – ou tão próxima de perdê-las.

Também, neste caso, um faroeste acoplado ao olhar da criança, o que explica as cenas pinçadas de Os Brutos Também Amam: o momento em que o menino é levado a conhecer, pelas palavras de Shane, a amargura do mundo adulto, a morte que não deixa outra saída ao pistoleiro senão vagar pelo mundo, sem rumo, sem volta.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Pois Logan (Hugh Jackman) chega ao futuro – ao fim da vida – como cavaleiro solitário. Ainda mantém certa rotina, mas nada que o retire do aspecto de morto-vivo, alguém com pouco ou quase nada; ele ainda cuida do professor Charles Xavier (Patrick Stewart) e trabalha como motorista de limousine.

A profissão possibilita ver extremos: o carro grande, belo, que leva pessoas em festa, ao mesmo tempo a janela que lança o espectador – e sua personagem desiludida – ao cenário árido da fronteira com o México, aos pobres que tentam atravessá-la.

O Wolverine dos filmes anteriores, de roupa colante e fúria invejável, abre espaço ao velho homem amargurado, sem o cabelo ao alto e a barba delineada, tentando não ser o animal de garras afloradas a qualquer provocação. Será assim durante todo o filme de James Mangold, que infelizmente se rende ao óbvio na parte final.

Logan decai quando volta a ser o que não deveria: o filme de super-herói típico, com garotos mutantes a descobrir seus superpoderes, com a aventura pela floresta, uma aventura passageira sem as sombras que elevam a qualidade da primeira parte.

É quando se perde algo de Mad Max, de Filhos da Esperança, e se retorna a X-Men: Primeira Classe ou a alguma fita do tipo. Ao que parece, não é possível abrir mão das velhas regras. E se assiste ainda a um filme com o carimbo da toda poderosa Marvel.

Melhor ficar com a primeira parte: é quando Logan, ciente de sua debilidade, do pouco espaço dos mutantes no mundo, depara-se com a pequena Laura (Dafne Keen), que possui os mesmos poderes que o protagonista: fator de cura e ossos e garras metálicas.

Vêm com ela os problemas: a indústria da genética que explora mexicanos e que, aliada a alguns caçadores de recompensa, passa a perseguir a garota. Não demora e Logan entra na briga, a da menina, e encontra então uma parceria igualmente letal.

O filme aborda a situação de pequenos e honestos fazendeiros americanos explorados por grandes produtores de grão. Retorna o conflito de Os Brutos Também Amam, a face cruel de Jack Palance, o grande vilão que testa os bons homens nos conhecidos duelos cara a cara, e quase sempre os vence.

O protagonista da obra de Mangold, mesmo com seu jeito animal, aos poucos deixa ver o lado humano, como Shane, o homem justo que vaga sem destino, que não tem família, disposto a restituir a ordem por onde passa. É alguém que não escapa à forma do herói.

(Idem, James Mangold, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Doutor Estranho, de Scott Derrickson

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s