Perdas e Danos, de Louis Malle

A primeira aparição de Juliette Binoche dá a ideia do peso de sua personagem, feita para desestabilizar: fria, vestindo preto, de cabelos curtos colados ao crânio, um ser que beira o exotismo e, justamente por isso, capaz de captar a atenção do protagonista.

Ele próprio apontará às intenções de Louis Malle em Perdas e Danos: “Quem é você?”, pergunta, no segundo encontro do casal, e ainda com roupas. Foi assim no primeiro: ele vai ao endereço dela e sem palavras avança. Fazem sexo ainda com roupas, a salientar o encontro desajeitado, e sem deixar claro se ela deseja-o de verdade.

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Ele deixa-se ver. Ela não dá indícios de paixão. Ao contrário, e como a personagem de Terence Stamp em Teorema, de Pasolini, ela existe apenas para desequilibrar a família “perfeita” encabeçada pelo homem de Jeremy Irons, o ministro Stephen Fleming.

Malle não chega à profundidade de Pasolini. Fica quase sempre na superfície. Seu filme tem bons momentos e, por algum milagre, o casal ainda consegue transmitir gotas de emoção. Não é sobre traição, mas sobre um homem que se vê nu, que descobre não ter o controle de si mesmo. O que leva ao desejo pelo anjo silencioso.

Ao descobrir essa mulher, a noiva do filho, Stephen converte-se em jovem bobo que passa a perseguir a nova amada. Chega a viajar de trem de Bruxelas a Paris apenas para um encontro rápido com a moça, a vê-la pela janela, no outro hotel, com seu filho.

Menos radical, às vezes atrevido, Malle não retira o filme da frieza: é para causar mal-estar, para não se entender o que nela tanto atrai o protagonista, e o que tanto o faz se desviar da mulher mais interessante em cena, sua esposa (Miranda Richardson), e que chega a lhe apresentar o corpo, ao fim, para ver o quanto perdeu.

Anna (Binoche), claro, tem passado nebuloso. Envolve a morte do irmão que ela amou. Quando perguntam o motivo da morte do rapaz, é direta, não menos fria: morreu por amor. A família desestruturada da moça, inaceitável à sociedade de bons modos e religiosa em questão, certamente a motiva a destruir a outra.

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Malle não precisa elegê-la vilã, o que, de novo, faz pensar no Stamp de olhar enigmático e que, pouco a pouco, traga todos à espiral de desgraça. Binoche não é atraente, tampouco o corpo que gera desejo enquanto faz sexo com o ministro. O cineasta francês filma o sexo como conflito, fúria, com as mãos dos amantes sobre os olhos do outro e os corpos que se debatem enquanto se tocam.

A falta de emoção tem a ver com essa sociedade fria e que ainda deixa ver, à deriva, em seus coadjuvantes, poucos sentimentos verdadeiros: a mãe que expõe o corpo que o marido perdeu, ou trocou; o filho que ainda guarda um sorriso verdadeiro.

A tragédia da parte final é clara: ao filho, não apenas a amante está nua. O pai, a família, todo o alicerce que não se vê na foto que o mesmo menino carrega, que o pai – longe de seu cargo, de suas funções públicas de ministro, e agora preso a algum lugar distante – vê-se obrigado a apreciar, ampliada, em sua parede.

A Anna da fotografia não está longe da moça em sua primeira aparição, ao pai, com seu jeito petrificado, seu olhar distante, seu convite à perdição. O mal que ela transmite é inexplicável, os efeitos são conhecidos: o homem segue em frente, perde tudo.

(Damage, Louis Malle, 1992)

Nota: ★★★☆☆

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4 comentários

  1. Eu adoro assistir os filmes de Jeremy Irons, especialmente Race é maravilhoso. É interessante ver um filme que está baseado em fatos reais, acho que são as melhores historias, porque não necessita da ficção para fazer uma boa produção. Gostei muito de Race, é a história de Jesse Owens, não conhecia a história e realmente gostei. Super recomendo.

  2. Muito boa a sua sacada da comparação com Teorema de Pasolini. Realmente os dois filmes têm muita semelhança. Parabéns. Isso é raro em um crítico de cinema. Perceber essas nuances de um filme. Gostei demais do seu comentário e vou voltar outras vezes para ler outros comentários. Estarei postando amanhã uma resenha sobre este filme também no meu blog. Se puder passar lá para ver será uma honra. Abraços.

    http://verdadesdeumser.com.br

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