A Mulher na Lua, de Fritz Lang

A ciência é um problema, diz Fritz Lang. Sempre leva a conflitos, a cientistas que parecem burocratas, a bandidos que se esforçam para roubar planos importantes. De cabelos oleosos, de corte impecável, eles antecipam a imagem dos nazistas.

E chegam mesmo a se transformar ao longo de A Mulher na Lua, de 1929, no qual a dama de traje masculino assume contornos angelicais, a santa que promete o recomeço ao fincar os pés – e sua câmera – na Lua, com os homens a cercá-la: é a possibilidade de uma nova vida no astro vizinho, local que talvez possua ouro.

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Os criminosos pretendem chegar à Lua para explorá-la. Os mocinhos – incluindo um doutor de cabelo bagunçado, homem estranho que mais tarde é seduzido pelo ouro – para impulsionarem a ciência. Os bandidos roubam os planos dos heróis. Todos embarcam para o espaço a bordo do foguete cuja forma antecipa os verdadeiros.

O filme de Lang prevê o futuro: costuma ser creditada ao cineasta a invenção da contagem regressiva, depois adotada pelos cientistas. Suas personagens não usam roupas especiais, à exceção do doutor de cabelo bagunçado, em uma espécie de escafandro quando salta em solo lunar, o primeiro a circular por ali.

Pela nave, as personagens dependem de agarradores no chão e no teto. Sim, a ausência de gravidade é abordada, ainda que nem sempre pareça presente em todos os momentos. Grande filme, A Mulher na Lua não se preocupa em ser verossímil, sobretudo porque foi realizado em uma época em que se baseava em pura imaginação.

Lang tem a saída perfeita para qualquer crítica à aparência absurda: o menino que carrega as histórias fantásticas, histórias em quadrinhos que apontam à impossibilidade de saber qualquer coisa sobre o astro vizinho da Terra, sobre o ponto luminoso que mais parece um queijo furado e que, aos olhos das personagens, a certa altura passa como rolo compressor sobre o planeta de origem.

Para Lang, a partir da obra de sua então esposa Thea von Harbou, qualquer coisa seria possível nessa terra estranha. Converte-a em um espaço de montanhas e deserto, de cavernas com líquido borbulhante, com lama e ouro em excesso entre rochas.

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A primeira parte do filme expõe os criminosos, seus furtos, e o triângulo amoroso formado pelo protagonista Helius (Willy Fritsch), sua amada Friede (Gerda Maurus) e o amigo Hans (Gustav von Wangenheim). Algumas representações de Metrópolis estão por ali. Entre elas, a mulher como força de libertação do herói, o ser puro, distante, a quem o tesouro lunar está nas imagens: ela é a responsável por filmar a Lua.

Entre maquetes e cenários curiosos, Lang constrói uma obra que não cai em excessos. Pode parecer exagerado e artificial, como seria, mais tarde, O Planeta dos Vampiros, do italiano Mario Bava. Por outro lado, Lang leva o material a sério e contra a ciência perigosa lança personagens carregadas de emoção, às vezes até infantis.

O excesso de sentimentalismo não se dá ao acaso. O cinema mudo não permite que ele perca-se em palavras bobas: está todo no olhar, na maneira, por exemplo, como a mulher aguarda o homem, em um dos últimos planos, para viverem naquele novo espaço de ouro em cavernas e de ninguém, talvez o novo Jardim do Éden.

O cineasta celebra a viagem ao espaço como algo puramente simbólico, viagem de descoberta. Não é a ciência o que mais importa aqui. O que está em jogo é descobrir algo além do plano conhecido, além da Terra: a ficção e a aventura nas revistas fantásticas carregadas pela criança.

(Frau im Mond, Fritz Lang, 1929)

Nota: ★★★★☆

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