A Academia das Musas, de José Luis Guerín

O cotidiano só se torna poesia quando existem musas. A ideia leva a pensar nas mulheres como fonte de inspiração aos artistas e gera algumas discussões, em sala de aula, ao longo de A Academia das Musas, de José Luis Guerín.

O professor que adota a ideia é o filólogo Raffaele Pinto. As mulheres são maioria em sua aula. Algumas não aceitam a posição de musas, talvez por aparentar algo submisso: a mulher, nesse caso, termina como objeto ao artista na formação de sua obra.

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O filme de Guerín vai além: a discussão que rodeia a presença das musas – o que felizmente escapa ao efeito pedagógico da sala de aula, com o professor a confrontar os alunos – remete à capacidade transformadora da arte, seu efeito sobre os sentimentos, a ponto de o educador proclamar que o amor pode ser uma invenção.

Apesar de incomum, o trabalho de Guerín não chega a ser complexo como parece. A discussão é sempre em torno da relação vital do homem com a arte e como isso afeta – ou se vê preso à – vida de todos. Não se separa mais a musa do homem, este da poesia, esta das discussões que invariavelmente dão um sentido à existência dessas pessoas.

O filme situa-se em diferentes ambientes. Da sala de aula Guerín salta à casa de Raffaele, às suas discussões com a mulher. No trabalho ou em casa, ele sempre retorna à discussão que permeia sua aula, sobre a posição delas, sobre a poesia, sobre o amor.

É inescapável. O filme consegue, por algum milagre, não ser cansativo. E mesmo o impedimento dos vidros, entre a câmera e as personagens em tantos momentos, dá a ideia de que toda a falta de acesso àquele universo é, entre tantos, mais um jogo.

Qualquer pessoa com o mínimo interesse por artes deverá se sentir instigado. Há, por exemplo, o momento curioso no qual uma aluna diz que as paixões desafiam as leis; em outro, discute-se se é o autor que cria sua musa ou se esta pode reivindicar sua posição.

Não chega ser um documentário, tampouco ficção plena. É uma experiência sobre a poesia como história, como pensamento, como bem necessário – e como parte do cotidiano, como na composição dos sons das ovelhas, com seus sinos, no campo.

Mais tarde, a musa deixa de ser matéria de classe. A aluna candidata-se à posição, ou simplesmente é escolhida pelo professor, dono de “todas” as respostas e, ao mesmo tempo, frio demais para ultrapassar pensamentos e partir para a vida real.

(La academia de las musas, José Luis Guerín, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Juventude, de Paolo Sorrentino

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