Juventude, de Paolo Sorrentino

Nos filmes – e não apenas neles –, pessoas em crise existencial quase sempre são artistas ou gente ligada à indústria do espetáculo. São pessoas que precisam de refúgio, cujo passado – distante em alguns casos – não desprega. Entre eles, ricos e refugiados, não há engenheiros ou matemáticos. Não são interessantes à ficção.

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Algum problema que “mereça” ser mostrado pertence sempre aos artistas, porque são sempre eles que contam essas mesmas histórias. Falam de si mesmos, são reflexos.

Em Juventude, o cenário é um hotel afastado, espaço de repouso composto por pessoas novas e velhas, até mesmo – ainda que em menor quantidade – por crianças. As águas da piscina são calmas. As personagens estão paralisadas, pouco a pouco externando problemas entre si, sempre vítimas do passado não superado.

O protagonista é o maestro Fred Ballinger (Michael Caine), um dos hóspedes, na companhia da filha, Lena (Rachel Weisz), e do melhor amigo, o cineasta Mick (Harvey Keitel). Fred ainda não superou o afastamento da mulher, sua inspiração para seguir com a carreira. Como outros artistas, é vítima do sucesso de uma obra.

Enquanto ele não consegue retornar à sua arte, Mick precisa filmar. Carrega a tiracolo alguns jovens realizadores. São motivados pelo artista mais velho, considerado gênio, e com ele tentam resolver o encerramento de um novo roteiro a ser filmado.

Lena acabou de separar do marido. Ele não escondeu os motivos do sogro, e este não deixou de revelá-los a ela: a mulher escolhida para ocupar seu lugar, famosa, é melhor na cama. A partir de caminhos diferentes a personagens próximas, o diretor Paolo Sorrentino questiona a maneira como lidam com o passado, ou com a velhice.

As lamentações chegam a ser cômicas, a certa altura: Fred conversa com Mick sobre a conquista de algumas gotas de urina, logo pela manhã. E pergunta ao companheiro se este, por acaso, chegou a fazer sexo com uma antiga amiga, alguém perdida no tempo.

Em um restaurante, eles observam um casal ao lado, sempre em silêncio, e apostam: será que, enfim, trocará palavras? O desespero, mais tarde, traz resposta: pode se esbofetear, no jantar, e assim criar uma cena – para depois fazer sexo entre árvores.

Como o Jep Gambardella (Toni Servillo) de A Grande Beleza, os amigos não se despregam do passado, da nostalgia que faz pensar na passagem de dias melhores a dias piores, tudo o que era bom e se perdeu, uma vida que não vale mais o esforço.

E, por isso, o refúgio: A Grande Beleza aproximava-se de A Doce Vida e, no caso de Juventude, a ligação felliniana é com Oito e Meio. Como na obra-prima de 1963, os artistas, aqui, miram sempre o próprio umbigo.

As caminhas de Fred e Mick dão luz a pequenos absurdos, a atos inusitados. Sorrentino filma-os em busca de extrema beleza – mesmo quando o corredor do hotel é feito de poucas luzes e Fred parece seguir ao purgatório. Esse excesso de beleza beira algo publicitário, desvia as dores de qualquer efeito profundo.

Fred, amargurado, tem algo a aprender com Mick: é impossível viver sem a arte. Uma rápida imagem do segundo, ao fim, entre os créditos, expõe o olhar de um cineasta, a história contada pelo ponto de vista do artista, sobre outros artistas.

(Youth, Paolo Sorrentino, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A doce vida de Woody Allen

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