O Último Metrô, de François Truffaut

Seria previsível, em outro caso, uma história de amor entre o casal ao centro, a dona do teatro e o ator que chega para o novo espetáculo. O cenário é a França ocupada pelos nazistas, durante a Segunda Guerra. A arte era uma fuga necessária.

Com François Truffaut, têm-se rodeios, nada fora do lugar. O Último Metrô é leve, como alguns dos melhores exemplares do mestre Jean Renoir. Pequenas e grandes personagens, todos com suas funções, seus pesos, sempre a driblar, com graça, o que poderia parecer plano, fácil. Ou seja, cinema como não se faz mais.

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Lá está a bela Catherine Deneuve, que poucas vezes pareceu tão bela, sendo o que não parece ser: a todo instante, tenta se manter a líder de um grupo, a mulher com a missão de comandar um teatro após a suposta fuga do marido judeu (Heinz Bennent).

Terá de se tornar duas mulheres em uma. Eis seu dilema em um mundo dividido, na França envelhecida que a fotografia de Néstor Almendros não deixa esconder. Mal se vê o lado de fora, a rua, qualquer plano aberto que revele o que está além do teatro.

Truffaut comprime a obra àquelas poucas vidas quase sempre passageiras. Há uma guerra que pouco ou nunca é vista. Há símbolos nazistas, pessoas assustadas, toques de recolher – sobretudo, o clima do conflito, embalado por incertezas.

A protagonista, Marion Steiner (Deneuve), passa boa parte de seu tempo com o marido, então o diretor da peça, que agora tem de se esconder em uma adega abaixo do teatro. O foragido abre um buraco em um cano para conseguir ouvir e acompanhar os ensaios.

O novo ator é Bernard (Gérard Depardieu). Na maior parte do filme, Marion tenta se desviar dele. O espectador tem dúvidas sobre esse homem estranho cheio de segredos. Todos tentam evitar problemas e estrear a peça, chamada A Desaparecida.

O possível amor entre Marion e Bernard é quase uma brincadeira, colisão entre seres destinados à confusão. Truffaut dá-se bem no campo da comédia de época, sempre com momentos em que alguém explode com frases de efeito, como a atriz (Sabine Haudepin) que não cansa de dizer que trabalha incansavelmente.

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A estrutura envolve inúmeras personagens e faz pensar em A Noite Americana – no qual é possível encontrar também uma senhora revoltada, com ataques aos profissionais que fazem um filme. No cinema de Truffaut, essa revolta vem carregada de amor.

O chamado “cineasta apaixonado” deixa ver em cada pequeno instante esse espírito de equipe, pessoas comprometidas com o teatro em O Último Metrô. Amor à causa e que faz a insistente Marion – com sua beleza clássica, com a dificuldade de assumir sentimentos – chocar-se com o durão e mulherengo Bernard.

A abertura, na qual ele corteja a figurinista do teatro, deixa ver claramente as intenções do cineasta. Resume o filme. Bernard persegue-a em longa caminhada, a mulher tenta se desviar. É como se o diretor apontasse à impossibilidade de se evitar os outros, de aproximação, e, ao mesmo tempo, à impressão de não se sair do lugar.

Apesar do clima atípico, serve-se de tipos conhecidos, de situações cotidianas. Retira daí sua riqueza, em algumas pequenas partes impagáveis que só voltam a traduzir, mais e mais, o quanto vale a pena resistir. O quanto vida e ficção sempre se refletem.

(Le dernier métro, François Truffaut, 1980)

Nota: ★★★★☆

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