Beleza Adormecida, de Julia Leigh

Desde seus primeiros instantes, Beleza Adormecida não se revela um filme de aproximação. Sua protagonista, jovem prostituta, uma working girl, coloca-se em um ponto de isolamento, com inegável frieza, a dizer frequentemente o inesperado.

Ela faz um exame médico durante a abertura. O homem que a examina introduz um canudo até seu estômago. Importa menos o que faz, mais o que significa esse laboratório asséptico e o que parece antecipar: ambientes sempre limpos nos quais homens confessam seus desejos, aproveitam possíveis esconderijos, nos quais a sujeira que o sexo poderia escancarar é sempre ocultada, ou apenas não existe.

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A força do trabalho de Julia Leigh deve-se àquilo que não mostra. Nesse sentido, o espectador sabe menos que a protagonista adormecida, a servir aos propósitos de homens com o estranho prazer de tê-la enquanto dorme por algumas horas.

Lucy (Emily Browning) passa a trabalhar em um bordel diferente. Ali, a cafetina manda seu motorista buscá-la, espera-a na porta, em plena luz do dia, e não cansa de repetir a ela – como aos clientes – as regras do local. A ela: não é possível ficar acordada, saber o desejo dos companheiros. A eles: não é permitido penetrar a jovem adormecida.

Opta-se por um filme realista, mas também pela dificuldade de saber tudo. A obra de Leigh trabalha no campo do oculto, da estranheza, estimula a imaginação do espectador. É difícil definir e julgar Lucy; nem mesmo contornos de prostituta ela possui.

Está sempre em movimento, trabalhando, estudando. Ao dormir nua e deixar que os homens estimulem-se com suas formas e imagem, com seu cheiro e frescor, ela curiosamente encontra seu tempo de descanso. Ao que parece, esses homens têm prazer por cadáveres, ou quase isso: a beleza morta que não cheira mal, que não apodrece.

Beleza que se mantém, igualmente a obsessão pela juventude. O que explica o tato da cafetina e de seu assistente no corpo de Lucy na entrevista de emprego. Pedem que fique apenas com as roupas íntimas, observam sua pele, cada detalhe do corpo.

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Antes de se oferecer em sono, a menina passa algumas noites servindo pessoas mais velhas e bem vestidas em um jantar. As criadas, como ela, vestem roupas íntimas para o trabalho, expõem os seios, e depois servem de companhia e acariciam os clientes.

O sexo nunca é exposto, ainda que esteja lá. Talvez tenha sido superado. O que aquelas pessoas buscam é a possibilidade de contemplar a beleza, o corpo jovem, de ter a menina adormecida ao mesmo tempo em que não deixam ver seus fetiches.

O único contato de Lucy com emoções verdadeiras se dá na companhia de um amigo, talvez um antigo companheiro, Birdman (Ewen Leslie). Prestes a morrer, o rapaz divide a cama com a moça, que chora enquanto ouve sua voz. Raro momento em que ela mostra sentimentos – em um ambiente envelhecido, diferente dos demais.

Leigh realiza um filme de emoções frias. Com esse mundo moderno chegam novos e estranhos prazeres. Sua protagonista está tão imersa no desejo de sobreviver e ganhar dinheiro que não encontra qualquer traço de vida, não se deixa envolver. Reflete o meio, os outros, com palavras sujas e automáticas, com seu rosto angelical.

(Sleeping Beauty, Julia Leigh, 2011)

Nota: ★★★☆☆

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