Aquário, de Andrea Arnold

A jornada de Mia (Katie Jarvis) é essencialmente física. A primeira impressão – com suas danças, caminhadas, seus xingamentos constantes a qualquer um – é de que será difícil penetrá-la e saber algo além da rebelde sem causa, típica adolescente.

O contrário aos poucos se impõe em Aquário, de Andrea Arnold, cuja estrutura faz pensar nos filmes dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. A menina aproxima-se, ainda cedo, de um cavalo amarrado, em sua andança, e deseja libertar o animal.

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O uso do velho cavalo dá humanização à personagem com certa facilidade. A aproximação é fundamental – ao cavalo e, por extensão, à menina. O que poderia fazer o animal depois de solto? Para onde seria levado? Mia foca apenas a liberdade, não suas consequências. A protagonista é movida por impulsos.

E por desentendimentos, por tropeços, como se verá na relação – ao centro da obra – com o novo namorado de sua mãe. Ele, Conor (Michael Fassbender), parece ver nela algo mais, talvez porque Mia mostre sinais de sua sexualidade, de seus desejos.

Mesmo com pouco a dizer, seu olhar deixa vê-la: ela passa a sentir atração pelo homem que aparece em sua cozinha com o tronco à mostra, que pede para que ela dance, e que, sem qualquer pudor pela aproximação da mãe, observa-a com inegável desejo.

Claro que a relação consome-se, certa noite, como parecem ser os “acidentes” movidos ao descontrole da adolescente, e do homem que age como tal. Será a descoberta da sexualidade para Mia, ainda que para Conor não passe de uma transa rápida.

Qualquer movimento da menina, seguido por seu olhar, nunca será automático; nenhum aparente acaso, ou tropeço, dá-se à toa na obra de Arnold. Os seres em cena desvencilham-se com a mesma velocidade que se unem, com algum sinal de amor.

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A menina pede dinheiro a Conor sem vergonha. Chega furtar alguns trocados de sua carteira. À frente, após fazer sexo com ele, invade a casa do homem que entrou em sua vida e na de sua mãe com velocidade e corpo em evidência.

Ao descobrir que ele tem família, Mia tem a ideia de lhe roubar a filha pequena. Corre com a criança em direção às águas geladas do mar ou de algum lago que faz fronteira àquelas casas aparentemente iguais, naquele mundo de classe média.

Chega a jogar a menina na água gelada, talvez porque a água, aqui, é ou foi um elemento de união. Na água, antes, Mia aproximou-se de Conor, quando este pegou um peixe para depois matá-lo. Nesse momento, Arnold enquadra ambos com certa distância, com o reflexo do sol no lago, para evidenciar a imersão dela no espaço dele.

A direção consciente, em busca de um filme realista, que não visa agradar o público, quase declina aos conhecidos sinais do drama. Um problema, ao fim, sempre virá seguido de outro, como se tudo não passasse de um teste para a jovem Mia.

Ainda assim, o filme mantém-se forte até o fechamento, comprovando a boa mão da diretora. Ao reproduzir um “aquário”, fala de seres com poucas chances de fuga, expõe menor humanismo entre personagens, mas, por invasão dos pequenos cômodos, com dança e olhares vagos, lança inegável vida ao espectador.

(Fish Tank, Andrea Arnold, 2009)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
De Cabeça Erguida, de Emmanuelle Bercot

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