Boa Noite, Mamãe, de Severin Fiala e Veronika Franz

Um dos principais méritos de Boa Noite, Mamãe é tratar crianças como crianças. Não significa que sejam naturalmente más. A frieza desse filme de terror permite que se retire o véu comum, de bondade, que sempre recai sobre elas. Ao escancarar isso, resta mais frieza que sangue ao filme de Severin Fiala e Veronika Franz.

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Os protagonistas, irmãos gêmeos, vivem em um mundo particular, embrenhados entre a floresta e a casa branca e fria, desconfiados do que pode alterar aquela realidade. Creem somente no que ouvem do outro, em tom menor, próximo ao ouvido. Nesse caso, é Lukas (Lukas Schwarz) quem fala a Elias (Elias Schwarz). Idênticos, são um só – em orações com velas e cruzes ou adeptos do mal extremo.

Os diretores, também autores do roteiro, exploram a crítica religiosa. Os meninos acreditam mais em suas vozes internas, na necessidade de confirmação, em pesadelos, menos no que parece óbvio. Passam a desconfiar da própria mãe. Acreditam que não seja a verdadeira. A mulher retorna com o rosto enfaixado após uma cirurgia estética, um pouco estressada. O pai dos meninos não vive mais ali.

O filme trabalha com o paralelo entre a maldade e o ambiente asséptico, beleza e monstruosidade. Antes de chegarem a casa, na abertura, os garotos brincam na mata. Caminham sobre o solo em movimento, a instabilidade da terra sobre a água.

Na casa, guardam insetos no aquário. O filme aponta às criaturas do subsolo, àquilo que aos poucos emerge – como no pesadelo em que insetos brotam da barriga da mãe, como se a “impostora” desse à luz seres repulsivos.

Pessoas com rostos enfaixados, no cinema, são naturalmente monstruosas. E a máscara, sem esforço, aponta ao sofrimento, à dor, ao passado, àquilo que se deixou para assumir outra persona. Nesse contexto, nasce outra oposição: a mãe logo se torna algoz, os meninos convertem-se em possíveis vítimas.

Os meninos desconfiam da mãe porque simplesmente aprenderam a desconfiar, ou a ouvir o outro, o duplo que não mente. A obra tampouco permite a compreensão da mulher. Prefere o lado físico e seus efeitos, enquanto o público segue os gêmeos em suas andanças, no fechar das persianas, pela escuridão.

Em um momento a explicar o todo, entram em um esconderijo com ossos ao chão – novo contraponto entre o mundo externo, à luz, e as sombras. Aos garotos, a mãe explica que precisa de repouso, que não pode se expor ao sol. Da mulher protetora passa então à figura reclusa em um filme curioso que prefere a imaginação ao sobrenatural. Suas doses de violência, à frente, são difíceis de encarar.

(Ich seh ich seh, Severin Fiala e Veronika Franz, 2014)

Nota: ★★★☆☆

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