Perversa Paixão, de Clint Eastwood

O ator e diretor Clint Eastwood é o que há de mais estranho em Perversa Paixão. Não chega a ser um liberal a ponto de se render aos prazeres de sua época, tampouco o completo durão a resolver tudo com violência.

É, como se sabe, o mesmo ator que faria Harry Callahan em Perseguidor Implacável, do mesmo ano. O terreno seria outro, o do policial com seus próprios meios, não o do amante irresistível perseguido por uma mulher, a Evelyn de Jessica Walter.

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Em seu primeiro trabalho como diretor, em 1971, Clint vira-se como pode para imprimir movimento ao filme e nem sempre tem sucesso. Demora a encontrar o eixo, perde tempo com algumas situações, e mais tarde apela ao suspense com sangue.

Ainda assim está longe do descartável. O mesmo homem perdido entre mulheres – ou, mais ainda, perdido em seu tempo – encontra-se irresistível: Clint tem aura natural de estrela e não precisa de muito para que não se perca de vista.

Mesmo os homens, os machos, não podem negar: o ator sofre e ama com honestidade, sem que se lance por completo, com alguma paixão, à personagem. É o mesmo Clint de tantas vezes, o que o faz mais próximo dos atores da era clássica.

Como o radialista e DJ Dave, Clint é mais mulherengo pelo que indica seus movimentos do que parece em seu jeito natural. Rochoso, talvez ainda tenha alguém para amar, e não dispensa a possibilidade de levar à cama uma nova mulher, ter outra aventura.

Ela é Evelyn, o início de seus problemas, alguém que conhece em uma noite como outra qualquer, no bar que costuma frequentar após seus programas. Ela logo revela ser uma de suas ouvintes, talvez um pouco especial: a mulher que liga sempre com o mesmo pedido: “Toque ‘Misty’ para mim”. Sinaliza o medo, o suspense.

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Começa como aventura, vira caso, termina como obsessão: no geral, esse jogo não é novo, ainda que Clint tente deixar o filme um pouco mais despojado, enquanto sua personagem parece sofrer – no fundo, sofre – com a presença feminina. Não pode amá-la, enquanto a mesma não sabe ser negada, não pode deixar de tê-lo. Rende-se à loucura a ponto de persegui-lo, sufocá-lo, e mais tarde tenta se matar em sua casa – antes de se tornar uma assassina quando percebe a derrota.

Clint, no fim, converte-se no bruto, mas antes cambaleia, corta-se todo, chega a ser atacado enquanto dorme, quando Evelyn vem para assombrá-lo. A última situação talvez não passe de um sonho, o que reforça a posição do homem perseguido pelo sexo oposto.

No caso dele, o interesse recai sobre Tobie (Donna Mills), a loura fria, um pouco distante, contraponto à morena perseguidora. Emerge o jogo hitchcockiano, com facas em quadros, com o mar ao fundo.

A certa altura, o filme toma outro clima: a assassina desaparece, o herói reencontra seu velho amor e, com ele, embrenha-se na mata. Fazem sexo. Outro contraponto: o amor da cidade – com obsessão e problemas – dá vez ao amor em meio à natureza. Clint resolve-se bem em qualquer terreno, sem se entregar totalmente a qualquer um.

(Play Misty for Me, Clint Eastwood, 1971)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Bastidores: Meu Nome é Coogan

1 comentário

  1. Revisei a trajetória de Clint Eastwood e me impressiona que os seus trabalhos tenham tanto êxito, um dos meus preferidos é Sully o rei do Rio Hudson por que faz com que o espectador se sente a ver o filme. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, adoro ver como os adaptam para a tela grande.

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