Altman e a ausência de história

É provável que se clame por mais alma, menos corpo, em De Corpo e Alma. O argumento comum, no filme de Robert Altman, é que falta uma história. Surge nesse ponto uma discussão recorrente: existe um modelo certo para contar histórias, como se devessem estar amarradas a conhecidas situações dramáticas?

O filme de Altman, pouco lembrado, é o exemplar perfeito da suposta “falta de história”: um painel ao modo do cineasta, às vezes quase um documentário sobre o balé, no qual sua câmera passa pelos bastidores e palcos, pelos pedaços de vida.

de corpo e alma

Tal forma seria vista em outros de seus trabalhos. Sabe-se que Altman relutou em aceitar dirigir De Corpo e Alma, o que só ocorreu após a insistência da atriz central, Neve Campbell, que, como se vê, tem formação de bailarina.

E para esse trabalho que não nasceu com ele, de um desejo profundo, o diretor levou tudo de si: em cada pequena parte, mesmo nas apresentações de balé, vê-se seu estilo inconfundível. É a forma como rouba apenas o ponto de partida para depois se impor.

Nesse sentido, Altman pode ser visto como “contrabandista”, em definição de Martin Scorsese: o cineasta que não deixa escapar seu estilo mesmo com material alheio, ainda que em poucas ocasiões possa ter sido acusado de se vender para seguir trabalhando.

Não é o caso de De Corpo e Alma, nem de filmes célebres como Voar é com os Pássaros (abaixo) ou O Perigoso Adeus, nos anos 70, ou, mais tarde, Kansas City, nos 90. Para o cineasta, Chandler era apenas o ponto de partida para jogar ao espectador algo que pode ser definido como “registro sobre a vida”, ou “ensaio”, e não contar “história” alguma.

voar é com os pássaros

Em Nashville, quase tudo é ensaio. Nesse campo, o erro muitas vezes conta mais, revela verdades contra o pavor da simetria, do espetáculo perfeitamente coreografado. Não à toa, há algo de propositalmente disforme em Voar é com os Pássaros, Oeste Selvagem, Cerimônia de Casamento e, entre outros, A Última Noite, sua despedida.

Resta, de um lado, a suposta ausência de história; de outro, a inegável presença dessa estrutura para lá de particular, a forma autoral que diferencia o cineasta americano de tantos outros e o coloca, sem surpresas, como um dos maiores de seu tempo.

É verdade que De Corpo e Alma tem mais corpo: suas personagens não se explicam, não há mergulho em seus dramas. Ora ou outra se vê algum problema, logo passageiro, e o casal ao centro tampouco terá os esperados conflitos e reconciliações.

O balé é a desculpa. Enquanto o espetáculo corre em sua perfeição, Altman joga seu olhar aos bastidores. Um dos técnicos indica as entradas, as luzes, os truques do palco. Na plateia, a voz das personagens ganha destaque. Uma tempestade aproxima-se durante a apresentação a céu aberto. O que seria banal faz toda a diferença.

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Bastidores: Três Mulheres
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