A Nós a Liberdade, de René Clair

Começa em prisão e termina em liberdade. Começa em um local fechado, frio, e termina em um local aberto, indefinido. Começa em pobreza e termina da mesma forma. Em A Nós a Liberdade, a riqueza está ao meio, e logo vai embora.

Nessa mágica comédia de René Clair, as coisas mudam a todo o momento: mudam, ao que parece, para serem as mesmas. Apenas ao fim, no caminho indefinido da estrada, é que surge a mudança. A transformação pela indefinição.

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Clair leva a crítica à comédia. Dilui por ali, entre mais prédios que natureza, um meio em que homens parecem formigas, uma enxurrada de trabalhadores em fileira, nas linhas de montagem, como máquinas. Os homens estão condenados: começam como presidiários e depois migram às fábricas e continuam presos.

A crítica de Clair está por todos os cantos, driblada pelo jeito infantil de sua dupla de protagonistas, os mesmos homens que começam como presidiários em fuga, cujas canções remetem à sonhada liberdade.

A fuga ocorre em uma noite como outra qualquer: um homem sobe nos ombros do outro e corta a grade da cela. Logo, ambos estão do lado de fora. Ainda há dois muros a atravessar. Um consegue ultrapassá-los e encontra a liberdade, o outro não.

Que liberdade é essa? Na obra de Clair, os homens constroem suas próprias prisões quando guiados pelo sistema e suas regras. O poder de prosperar, de enriquecer. O sistema é ainda mais gentil quando se tem ganância, esperteza e coragem para trapacear.

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Louis (Raymond Cordy) é quem consegue vencer os muros da prisão. Torna-se vendedor de vitrolas após furtar uma loja. Torna-se, com tempo, empresário no ramo de aparelhos de discos de vinil, explorador dessa indústria movimentada pela cultura.

É diferente do amigo que ficou preso, mais ingênuo, ainda crente no amor, e levado pelo som da música vindo do apartamento em frente à prisão. Vivido por Henri Marchand, Émile, nas voltas que o filme proporciona, consegue reencontrar o amigo Louis.

A essa altura, um é pobre, o outro é rico. O amor de Émile por uma mulher que não o ama é proporcional à negação do outro à mulher que o trai, provavelmente interesseira e que só se casou com ele por questões financeiras.

Enquanto um ama e assiste ao amor verdadeiro, para longe da ambição daquele universo, o outro não pode fazer nada senão ser vítima dela, porque escolheu estar ao centro do mesmo universo. Louis lutou para ser o grande empresário.

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A Nós a Liberdade leva suas peças à confusão, à desestruturação da ordem da fábrica – que, ao fim, só poderá proporcionar harmonia na ausência do controle do homem. As máquinas são quase independentes, as pessoas têm descanso.

As máquinas são boas? Ao que parece, não é o que Clair deseja abordar. Aqui, o homem sempre é condenado à prisão quando tenta ter o controle de seu meio. Ele deverá fugir de sua criação: mergulhar na estrada, seguir em frente, como o Carlitos de Charles Chaplin, em direção à estrada e longe do universo que não o compreende.

Não se trata de fracasso. Perto do fim, o dinheiro é levado pelo vento, os ares da transformação. As estruturas são fracas, o poder parece leve, a prisão não assusta. Os homens continuam como são, no início e no fim.

(À nous la liberté, René Clair, 1931)

Nota: ★★★★☆

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