A Nós a Liberdade, de René Clair

Começa em prisão e termina em liberdade. Começa em um local fechado, frio, termina em um local aberto, indefinido. Começa em pobreza e termina da mesma forma. Em A Nós a Liberdade, o dinheiro está ao meio, não para todos, e logo vai embora.

Nessa comédia mágica de René Clair, as coisas mudam a todo o momento – e, ao que parece, continuam as mesmas. Apenas ao fim, pelo caminho indefinido da estrada, é que surge a mudança real.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

a nós a liberdade1

Clair leva a crítica à comédia. Dilui, entre mais prédios que a natureza, um meio em que homens parecem formigas, enxurrada de trabalhadores em fileiras, nas linhas de montagem, como máquinas. Os homens estão condenados: começam como presidiários e depois migram às fábricas, operários ou patrões. Continuarão presos.

A crítica de Clair está por todos os cantos, driblada, ora ou outra, pelo jeito infantil da dupla de protagonistas, antes os presidiários. A fuga ocorre em uma noite como outra qualquer: um homem sobe nos ombros do outro e corta a grade da cela. Do lado de fora há dois muros a ultrapassar. Um consegue e encontra a liberdade, o outro não.

Que liberdade é essa? Na obra de Clair, os homens constroem suas próprias prisões quando guiados ao sistema e às suas regras. O poder de prosperar, de enriquecer. O sistema é gentil quando se tem ganância, esperteza e coragem para trapacear.

Louis (Raymond Cordy) é quem consegue vencer os muros da prisão. Torna-se vendedor de vitrolas depois de furtar uma loja. Com tempo, converte-se em empresário no ramo de aparelhos de discos de vinil, indústria ancorada na cultura.

É diferente do amigo que ficou preso, mais ingênuo, ainda crente no amor, levado pelo som da música vindo do apartamento de frente à prisão. Vivido por Henri Marchand, Émile, nas voltas que o filme proporciona, consegue reencontrar Louis. A essa altura, um continua pobre, o outro enriqueceu. O amor de Émile por uma mulher que não o ama é proporcional à negação do outro à mulher que o trai, provavelmente interesseira e levada ao matrimônio por questões meramente financeiras.

Enquanto um ama e assiste ao amor verdadeiro, longe da ambição, o outro não pode fazer nada senão ser vítima dela. Louis escolheu estar ao centro desse mesmo universo injusto, lutou para ser um grande empresário.

A Nós a Liberdade leva suas peças à confusão, à desestruturação da ordem imposta da fábrica. com suas máquinas, seus homens certinhos, à ausência de vida – fábrica que, ao fim, só poderá proporcionar harmonia na ausência do controle do homem. As máquinas são quase independentes, as pessoas conquistam o descanso.

As máquinas não são boas nem más. Aqui, o homem é sempre condenado, ou trapaceado, ou vítima de ironias do destino, quando tenta ter controle de seu meio. Ele deverá fugir de sua criação: a este só resta o incerto, seguir em frente, a estrada, como o Carlitos de Charles Chaplin, distante do mundo que não o compreende.

Não se trata de fracasso. O que poderia ser um final infeliz dá vez ao alívio. O dinheiro é levado pelo vento, o absurdo ganha espaço. As estruturas são fracas, o poder esfarela, a prisão não assusta. No início e no fim, os homens continuam como sempre foram.

(À nous la liberté, René Clair, 1931)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os 100 melhores filmes dos anos 30

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s