Geração Tony Montana

Os jovens ignoram a morte de Tony Montana, personagem imortalizada por Al Pacino em Scarface. Ou isso apenas torna a jornada mais excitante: é o tipo de morte que justifica o fim de sua história, no mundo em que tudo está à mão.

Aos jovens, nada mais excitante que a frase que percorre a mente de Tony e o filme de Brian De Palma, ou, antes, a versão clássica de Howard Hawks: “O mundo é seu”.

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Não estranha a idolatria a Tony e seu jeito de ser. É o que se constata no recente Spring Breakers: Garotas Perigosas, de Harmony Korine. A certa altura, uma foto de Tony surge na casa do traficante interpretado por James Franco. Nascido no “paraíso” do sol e das facilidades, ele inspira-se na figura de Pacino.

No filme de De Palma, de 1983, Tony vai de Cuba para Miami em um barco enviado por Fidel Castro. Não estavam ali apenas pessoas cansadas do regime cubano, mas também criminosos, a escória do país – gente perfeita para progredir nos Estados Unidos.

A obra, a partir do roteiro de Oliver Stone, mostra como o desejo de enriquecimento vem embalado pela ideia do mundo à mão, graças também às propagandas de lugares paradisíacos, com grandes coqueiros e mar cristalino – como aquela que contrasta o ambiente do primeiro emprego de Tony, justamente sobre sua cabeça.

O caminho mais rápido é o do crime. E Tony, cobra viva, sabe como se impor: controla os outros à base do grito. E não precisa interpretar. É real em sua própria falsidade, é justamente o homem que parece ser, sem mentiras, sem adulação.

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Isso constrói o mito do homem que toma o mundo, que cheira intermináveis carreiras de cocaína, que eleva suas armas como brinquedos, com sua mansão, com sua mulher desejada (ninguém menos que Michelle Pfeiffer) e sua banheira cheia de espuma.

Manda, cobra, e vai atrás dos inimigos – para matá-los – quando necessário. Ao fim, perto da morte, não aceita se entregar. Resiste como bom guerreiro. Destrói os outros enquanto pede que estes digam “alô” ao seu “pequeno amigo” – sua arma. Por tudo isso, Tony faz parte do imaginário popular – como amostra de poder ou mesmo como crítica ao sistema baseado na propaganda do paraíso, em que tudo parece possível.

Nada mais atraente aos jovens de Spring Breakers, sobre belas estudantes que praticam um assalto para passar as férias na Califórnia à beira mar. Mais tarde, já no paraíso, envolvem-se em festas regadas à cocaína e outras drogas. Terminam presas e, após algumas horas em cela fria, têm suas fianças pagas por um traficante.

A liberdade exige obediência: elas tornam-se as “garotas do chefe”. A personagem de Franco é um homem desregrado com dentes metálicos, com o carro colorido de rodas com desenhos de cifrão e teto conversível.

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Também autor do roteiro, Korine aposta no visual que alterna momentos de felicidade e desespero, vida e morte. Aos poucos, as imagens de vídeo-clip mesclam-se à violência extrema, e não é possível diferenciar mais uma coisa da outra.

O recado é óbvio: a publicidade e todo o universo que a cerca – com música, cortes rápidos e luzes neon – têm sua parcela de culpa na produção dos jovens idólatras de Tony Montana. A propaganda surge nos primeiros instantes: um bando de jovens na praia, em festa, com muita bebida e diversão. O mundo foi tomado por eles.

Em A Isca, de Bertrand Tavernier, jovens franceses também são tomados pela ideia do mundo fácil. Tornam-se assaltantes. Na casa de um deles, assistem Scarface na televisão. Têm seus motivos para adorar a personagem de Al Pacino.

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