Pecado sem Mácula, de Anthony Mann

Amedrontadora e impessoal, a cidade grande é semelhante ao espaço composto por Jules Dassin em Cidade Nua. Tem realismo, sombras, gente do cinema clássico fundida às outras, flagradas em outro dia de trabalho, entre a massa. Em Pecado sem Mácula, Anthony Mann primeiro apresenta o narrador, alguém que conhece essa metrópole de desconhecidos. Há ironia em seus comentários.

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A história envolve o inocente carteiro Joe Norson (Farley Granger), um entre tantos sonhadores da turba. Prestes a ser pai, ele cai em tentação: sabe onde há dinheiro fácil e decide cometer um crime. De aparência inocente, logo se transforma: aos poucos está sujo, com escoriações, às sombras dos prédios, em corredores deteriorados.

Pode ser falso enquanto inocente, mas faz parte desse realismo em que todos se misturam. Sua mulher é a também bondosa Ellen (Cathy O’Donnell), sempre em defesa do marido. Ao casal, o dinheiro furtado representa um novo começo.

O policial e narrador é o capitão Walter (Paul Kelly), que passa a investigar o caso quando outros itens compõem o processo: o cadáver de uma bela loura, um homem rico chantageado, mais dinheiro do que imaginava o inocente, além dos dois bandidos.

Esperançoso quanto às mudanças, Joe toma consciência ao visitar o filho no hospital. Mann contrapõe a claridade do ambiente à escuridão de outros, sobretudo à do apartamento da mulher que, perto do fim, entrega o protagonista aos vilões. Interpretada por Jean Hagen, Harriet Sinton dá mais vida ao filme de Mann. Cantora de cabaré e alcoólatra, preenche a tela com emoção, ganha pela presença, destoa – como se veria, anos depois, na personagem de Gloria Grahame em Os Corruptos.

Para Mann, trata-se de um espaço – ou uma cidade – de conexões, o que explica ter filmado a perseguição final do alto dos prédios, na qual os veículos convertem-se em peças de tabuleiro. Sobrepõe o realismo ao clima noir, que atinge o ápice na sequência de Joe e Harriet pelos corredores e escadas aos cacos, rumo ao covil dos vilões.

Como o incrível Entre Dois Fogos, que Mann realizou antes, trata-se de um filme de personagens prontas. Harriet é a esperança de mutação, desiludida e largada por alguém após a Segunda Guerra Mundial – e que ainda pode crer no amor. Cruel, o diretor não oferece um encerramento positivo, muito menos o oposto.

Ao fim, fica o rosto de Ellen. As mãos do amado não conseguem tocá-la. São separados pelo vidro do carro. O veículo movimenta-se, a mulher fica para trás. O mesmo casal de atores esteve no poderoso Amarga Esperança, de 1948, sobre amantes em fuga. Em Pecado Sem Mácula, terminam rendidos à miséria da cidade grande.

(Side Street, Anthony Mann, 1949)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Conspiração, de Anthony Mann

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