Orson Welles, 100 anos

O suficiente sobre Orson Welles está em Cidade Kane. Certo e errado. Certo porque é o filme que marca uma virada de página na história do cinema, filme completo, frequente nas listas de melhores de todos os tempos – quase sempre nas primeiras posições. Errado porque Welles, seu criador, fez outras maravilhas ao longo da carreira.

Para muitos, Cidadão Kane é o início e o fim, suficiente para louvar o realizador. Paga-se o preço pela pérola de abertura, pois, depois dela, não faria nada igual: a obra-prima continua enigmática, irretocável, com ousadias que hoje podem parecer comuns.

cidadão kane

A história de um pequeno rapaz rico, cuja fortuna nasce de um golpe de sorte, e depois a história de um velho homem recluso. O “menino”, então, encontra seu brinquedo perfeito: um jornal. Ou mais: a informação, a influência, a política.

Terreno arenoso de palanques, de salas cheias de dançarinas e figuras importantes; e depois em seu grande castelo, em sua mumificação em vida, com a mulher que não o ama e que não deixa de lhe servir como manda o papel, como mandam os desejos do homem, como peça que, mais tarde, desloca-se do quebra-cabeça.

Tal filme custou caro: fora das telas, Welles desafiou William Randolph Hearst, o magnata da comunicação da época. Kane é sobre ele, ou parcialmente. Seu Rosebud, diz a história, seria o apelido dado por Hearst às partes íntimas da amante.

Lendas que ajudam a encorpar o filme, a mantê-lo vivo. Depois dele – e, sobretudo, depois da campanha de Hearst contra a obra – Welles viu-se em enrascadas: um grande filme mutilado (Soberba), uma obra ousada que não chegaria ao fim (É Tudo Verdade).

a marca da maldade

A vontade de dizer algo, depois de Kane, não o deixou parar. Não parou. Vieram obras aparentemente irregulares, ainda assim belas, como O Estranho e A Dama de Xangai. Depois, importantes adaptações de Shakespeare.

O Welles ator também se deixava ver. Perfeito para o homem supostamente morto, no mundo dividido do pós-guerra de O Terceiro Homem, de Carol Reed. Ninguém esquece sua primeira aparição, sob a luz da janela, tampouco sua frase sobre o relógio cuco e seu desespero ao fim, em fuga pelos labirintos do subsolo.

Mais tarde, serviu à perfeição em outros papéis, como em O Mercador de Almas, de Martin Ritt, e, ainda mais, na pele do vilão de A Marca da Maldade, o corrupto capitão de polícia Hank Quinlan, em outra obra-prima de sua autoria.

O artista parecia estar sempre à margem nos filmes que dirigiu ou atuou – em produções menores ou papéis secundários. Mesmo sem as certezas sobre o grau de respeitabilidade dos homens do sistema de estúdios, a impressão é que Hollywood e seus figurões nunca perdoaram Welles pela ousadia de Kane. Antes condenado, depois absolvido.

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