Dez clássicos com indicações e subtexto gay

Nem todo mundo quer ver, mas está tudo lá. Para desviar da censura, a Hollywood clássica encontrou formas de emplacar mensagens desejadas. Àquele que pretende mergulhar nessas obras, é possível ver como homens ignoravam mulheres e preferiam outros homens, ou como mulheres eram mais atraídas por outras damas.

Hollywood, de fundo liberal, impossibilitada de mostrar o que desejava devido ao Código Hays (de 1934 aos anos 1960), encontrava nos subtextos, no não “evidenciado”, o jeito de expor o sexo e sua liberação. Diretores como Billy Wilder e Preston Sturges faziam isso como ninguém.

A homossexualidade não escapava a esse jogo de criações que diziam sem dizer, de mensagens cifradas mas evidentes aos olhos do público inteligente.

Rainha Christina, de Rouben Mamoulian

Lançado pouco antes de o Código Hays ganhar força, o filme traz um beijo entre Greta Garbo e outra mulher, como se fosse apenas um cumprimento entre amigas, ou forma de mostrar como a patroa – a rainha forte – era bondosa com a jovem conselheira. Três anos antes, Marlene Dietrich também havia beijado outra mulher no belo Marrocos.

O Falcão Maltês, de John Huston

Além da personagem efeminada de Peter Lorre, o filme traz uma possível relação entre o bandido Sydney Greenstreet e seu “afilhado”, interpretado por Elisha Cook Jr. É o primeiro filme verdadeiramente noir de Hollywood.

Gilda, de Charles Vidor

Outro caso interessante da relação entre patrão e funcionário, na qual o capanga vivido por Glenn Ford teria “algo a mais” com o marido de sua amada, Gilda, interpretado pelo sempre malvado George Macready. Alguns diálogos deixam isso às claras.

Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock

O verdadeiro motivo que leva dois amigos a matar um terceiro seria um possível triângulo amoroso mal resolvido. No filme, eles escondem o corpo da vítima em um baú, sobre o qual é celebrado um banquete.

Rio Vermelho, de Howard Hawks

Trata-se de uma cena sempre lembrada pelos cinéfilos. É o momento em que as personagens de Montgomery Clift e John Ireland expõem suas armas. Diz o homem de Ireland: “Sabe, existem somente duas coisas mais atraentes que uma boa arma. Um relógio suíço ou uma mulher de qualquer lugar. Alguma vez você já teve um relógio suíço?”.

Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock

O mestre do suspense era também o mestre das sugestões, das entrelinhas. Nada escapava a Hitchcock, que desenvolvia seus suspenses cercados de carga erótica e relações mal resolvidas. E, em Pacto Sinistro, de novo com o ator Farley Granger. Aqui, dois homens esbarram os pés em uma viagem de trem, trocam conversas e crimes – e talvez um pouco mais.

Juventude Transviada, de Nicholas Ray

A revolta da personagem de Sal Mineo e seus segredos nem sempre ficam claros ao espectador. Sua maneira fechada e sua dificuldade de se comunicar reforçam sua inclinação gay. Em James Dean, o “rebelde sem causa”, ele encontra alguém inspirador, para ter ao lado. Um amigo que nunca teve.

Casa de Bambu, de Samuel Fuller

Após sugerir uma relação gay entre Jesse James e Robert Ford em Matei Jesse James, seu primeiro filme, Fuller volta mais uma vez à condição do capanga (Robert Stack) protegido pelo chefe (Robert Ryan). O cenário é o Japão dominado por gangues americanas, após a Segunda Guerra Mundial.

Ben-Hur, de William Wyler

O próprio roteirista Gore Vidal assumiria, mais tarde, que escreveu o texto pensando em uma relação gay entre o herói e seu algoz, Messala (Stephen Boyd). Segundo histórias de bastidores, Boyd sabia do caso, mas o astro Charlton Heston – famoso conservador, membro da Associação Nacional do Rifle – nem desconfiou dessa possibilidade.

Spartacus, de Stanley Kubrick

No momento em que tenta seduzir seu criado (Tony Curtis), o poderoso Crassus (Laurence Olivier) pergunta se ele prefere ostras ou caracóis. A cena, contudo, foi cortada na época do lançamento e só reintegrada ao filme quando ocorreu sua restauração. O roteiro foi escrito por Dalton Trumbo, a produção é do próprio astro Kirk Douglas.

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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Veja também:
A trajetória de William Wyler, por Antonio Moniz Vianna

5 comentários sobre “Dez clássicos com indicações e subtexto gay

  1. Não concordo com sua abordagem sobre Pacto Sinistro, eles não concordam em nada, nem com os crimes e muito menos com algo mais. Tudo parte da mente doentia do Bruno, e eu nunca enxerguei nenhum subtexto homossexual entre os dois.

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