O Jogo da Imitação, de Morten Tyldum

Duas guerras correm ao longo de O Jogo da Imitação. A primeira está escancarada: inclui mortes, bombas, gente comum indo para abrigos. A segunda alimenta o filme e o torna interessante: o conflito silencioso, feito de códigos, travado em salas com máquinas estranhas e homens pensantes. Guerra nem sempre fácil de entender.

Nesse segundo terreno há ainda outro aspecto interessante a ser explorado pelo diretor Morten Tyldum: à condição do protagonista, um matemático homossexual, soma-se seu importante trabalho. Na guerra que envolve números, para decifrar as mensagens do inimigo, Alan Turing tem de viver se escondendo.

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À época, durante e depois da Segunda Guerra Mundial, a prática homossexual era crime na Inglaterra. Assim, o tal “jogo da imitação” aponta, sobretudo, à condição dessa personagem sempre difícil de entender, impenetrável.

As palavras de Turing, vivido na medida por Benedict Cumberbatch, não prometem muito nos primeiros instantes do filme. Ele é o próprio enigma a ser resolvido. Em silêncio, diz mais: todos os homens são assim em tempos de pouca liberdade, inexplicáveis e enigmáticos, às vezes flexíveis, às vezes não.

Turing não pode ser visto como alguém comum. O filme deixará isso saliente: a certa altura, na adolescência, ele carrega uma carta para outro rapaz, alguém que ama, e se coloca no caminho oposto ao dos jovens que chegam à escola.

Já um matemático contratado para decifrar os códigos nazistas, ele encontra uma garota atraente e inteligente, Joan (Keira Knightley). A capacidade dela em lidar com questões que envolvem códigos chama a atenção de Turing, que logo a contrata para ajudá-lo.

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A condição da mulher é exposta nessa jovem. Mais tarde, quando a mesma ameaça deixar o trabalho no governo britânico, Turing será capaz de pedi-la em casamento para chegar à sua vitória, em meio à sua guerra.

A verdadeira guerra – de aviões e bombas – interessa menos a Turing. O que faz sentido, em seu caso, é o que está oculto. O filme de Tyldum sempre deixará exposta essa necessidade de viver segundo as regras dos códigos invisíveis.

Ainda que não seja possível invadir Turing, é possível ver nele um homem infeliz. Sua busca não termina nunca, apesar do fim da guerra. Sua busca não pode terminar porque se baseia na imitação, no escondido, talvez em ser outro – ou talvez por viver em um universo em que deve escolher as mesmas coisas que os outros.

A guerra às claras termina. A de Turing continua – e esse é o grande drama do filme. E se há mais guerras a chegar, o homem ao centro – em qualquer uma delas – continuará um incompreendido. Continua vivendo sua imitação.

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O sucesso de Turing e de seus parceiros deverá permanecer oculto, queimado, e a vitória dar-se-á em silêncio. Mais tarde, ele será acusado de indecência por ser homossexual. Termina interrogado, depois obrigado a fazer tratamento hormonal.

O policial que o interroga acredita estar atrás de um espião. Ao longo do filme, ele não será o único: tal como é, um enigma, Turing carrega essas características – alguém estranho, às sombras, cheio de jogos e regras.

O mesmo policial, após interrogá-lo, confessará: “Eu não posso julgá-lo”. Oferece assim a resposta – o golpe maior – a um país que matou seu herói. O Jogo da Imitação leva a esse estado de guerra, de duas guerras, com feitos heroicos e injustiças, para fazer pensar nos infinitos enigmas de um único homem.

Nota: ★★★☆☆

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