Os suspeitos de sempre

O Oscar tornou-se um prêmio previsível. Meses antes das indicações, boa parte dos cinéfilos, críticos e outros especialistas já conhecia quase todos os concorrentes.

Não é diferente em 2015: dos oito selecionados à categoria de melhor filme, sete já eram dados como certo entre eles. Apenas a presença de Whiplash: Em Busca da Perfeição gera alguma surpresa. Em geral, as indicações costumam acompanhar outros prêmios da temporada, entre o fim e o começo do ano. Agora não é diferente.

oscar

Já se falava no favoritismo de Boyhood: Da Infância à Juventude, tal como na presença certa de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Os concorrentes britânicos já vestiam roupas de gala: A Teoria de Tudo e O Jogo de Imitação parecem tão moldados ao prêmio que suas ausências seriam mais lembradas.

Como em anos anteriores, há o concorrente que aborda questões raciais, Selma, de Ava DuVernay. Há também o filme “de autor” – original o suficiente para estar entre todos, mas insuficiente à categoria principal. Muitas vezes, fica a consolação: o prêmio de roteiro.

Neste ano, é o caso de O Grande Hotel Budapeste, como foi, antes, o caso de Ela, ou mesmo o de Django Livre. Tudo isso só reforça a política de dar voz a todos, como se houvesse pluralidade.

Isso faz com que alguns estúdios busquem cada vez mais a forma do bolo: o jeito de fazer o chamado “filme de Oscar”. São produções com características que a Academia costuma gostar. Ou amar. Às vezes dá certo, às vezes não.

Pode ser um filme de época, passado em alguma guerra, com uma história real. Acrescenta-se a tentativa de superação da personagem, ou mesmo uma grande realização nem sempre reconhecida em seu tempo.

a origem

A Academia adora histórias reais. Adora filmes sobre grandes figuras, adora drama e costuma desprezar filmes de terror e fantasia. Felizmente há exceções.

Desde que passou de cinco para até dez indicados, havia a promessa de que abriria mais espaço para gêneros ou mesmo a filmes que não costumam figurar entre os indicados ao prêmio. Isso se cumpriu parcialmente.

Nos últimos anos, graças à mudança, filmes como A Origem (foto acima) e Distrito 9 conseguiram suas indicações, tal como a animação Up: Altas Aventuras e Toy Story 3. Nem por isso as produções chamadas de “estrangeiras” encontraram espaço.

Às vezes conseguem indicações em alguma categoria técnica, como é o caso do polonês Ida, que concorre em 2015 a melhor fotografia – como ocorreu antes com A Fita Branca, Cidade de Deus e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Não é fácil ser o “estrangeiro” na festa. O prêmio é para os membros de dentro, mesmo quando um filme como Boyhood parece estar à deriva. E isso é sinal dos tempos: nenhum dos oito filmes que concorrem ao Oscar 2015 aparece como produção popular, que levou uma avalanche de pessoas ao cinema. Não há, por exemplo, um filme do tamanho de Gravidade, ou de A Origem. Em suma, não há uma produção que possa ser considerada tipicamente hollywoodiana, fora do eixo do Oscar e de festivais. O abismo entre o grande público e o prêmio nunca foi tão grande.

Não que isso tenha importância. Quando se trata de qualidade, não tem. Apesar de previsível, o Oscar mostra certa coragem. Tenta, com dificuldade, não se dobrar por completo à indústria e ainda é capaz – o que é louvável – de esnobar filmes como Invencível, que aglutina traços do chamado “filme de Oscar” sem merecê-lo.

Depois das previsões para os indicados, começam a surgir as apostas para os ganhadores. Não será difícil acertar, sobretudo quando os prêmios dos sindicatos forem entregues. O resultado pode ser o mesmo de 2014: uma festa sem qualquer graça, feita apenas para abrir envelopes e fingir surpresa.

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