A morte será televisionada

A busca pela audiência faz as mulheres de Rede de Intrigas e O Abutre chegarem ao gozo: a primeira, interpretada por Faye Dunaway, delira enquanto sonha com bons números, ao lado do amante; a segunda, na pele de Rene Russo, está seduzida pelas imagens da criminalidade de Los Angeles, fornecidas por um amigo cinegrafista.

Ambas retratam essa busca insana, desenfreada, e que revela os exageros do jornalismo. Elas são capazes de qualquer coisa para prender olhos e mentes ao conteúdo apresentado.

rede de intrigas faye

Como Diana Christensen, Dunaway é o retrato da nova televisão dos anos 70. Perto dela estão alguns grandes homens que deram início a esse trabalho, homens como o correto Max (William Holden). E também seres estranhos como o apresentador Howard Beale (Peter Finch), levado a momentos de loucura e “iluminação” em seu programa.

Tal homem faz sentido nesses tempos estranhos e é tudo o que Christensen deseja: o suposto monstro que fala o que vem à mente, o novo profeta das massas.

Ela, ao contrário de Max, entende que o sucesso da emissora – que passa por momentos ruins – depende dessa nova atração. Deixam Beale dizer o que quiser, com o espaço necessário. Ele faz sua parte. Com ele, a audiência desejada.

Por outro lado, apenas números dão significado a Christensen, também o gozo. Há neles certa emoção, o que parece incompreensível a um homem de emoções antigas, de piadas em rodas de amigo, como Max, justamente o amante da nova produtora.

Mais do que sentimentos, são os números que estão em jogo. Rede de Intrigas, dirigido por Sidney Lumet e escrito por Paddy Chayefsky, é o melhor filme já feito sobre a televisão justamente porque não renuncia nunca às emoções.

abutre

As personagens de O Abutre, por sua vez, não têm qualquer emoção. É a proposta – e a crítica – do cineasta Dan Gilroy, também autor do roteiro. Aos americanos em cena o que importa é empreender, é ter a sonhada empresa, é ter o lucro e os números desejados. Quase não há espaço para as emoções.

Se de um lado há o perseguidor de tragédias vivido por Jake Gyllenhaal como a face da desumanização, de outro, em Rene Russo, há a verdadeira maquiagem. Em seu papel de dama poderosa, presa às salas cheias de máquinas e imagens, ela mostra-se seduzida por tudo o que aponta ao “mundo cão” visto do lado de fora.

Ela não ama o novo colaborador vivido por Gyllenhaal. No fundo, como o espectador, ninguém poderia amá-lo. A mulher deseja apenas aquele material captado sob o risco de levar um tiro, feito tão perto da morte que é possível ver detalhes das vítimas.

Com essas mulheres, o circo midiático ganha outra face: elas provocam o espectador à medida que parecem frágeis, ou à medida que deixam surgir seus orgasmos.

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