Amores Imaginários, de Xavier Dolan

O amor faz as personagens de Amores Imaginários agirem de maneira imprevisível: elas quase sempre se comportam como crianças. Ou mais: quase sempre tentam ser adultas enquanto esse jeito infantil escapa pelas bordas, nos detalhes.

O segundo filme de Xavier Dolan é mais feliz, mais colorido que o primeiro, Eu Matei Minha Mãe. Mais uma vez, o próprio diretor vive uma das personagens centrais, Francis, que está apaixonada pelo mesmo menino que sua melhor amiga.

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Ela é Marie (Monia Chokri), cujas roupas fazem com que pareça mais velha, ou simplesmente alguém de outro tempo. Talvez essas mesmas roupas mostrem quem ela realmente é, decidida, madura, ou justamente o oposto: alguém que deseja projetar a imagem da mulher forte, vítima das ciladas do amor jovem.

Para Dolan, essas personagens ora ou outra são vítimas desse sentimento bobo: amor inexplicável, que as leva a besteiras, ao inimaginável.

Como explicar, por exemplo, a crise de Marie frente à noite em que Francis passou com o outro garoto? No dia seguinte, enquanto tenta ir embora da casa de campo, ela chega a esbofetear o amigo. Tal gesto coloca tudo às claras: ela não consegue mais esconder aquela disputa travada com o melhor amigo.

O objeto de desejo é um rapaz magro e louro, de cabelos encaracolados, um tanto andrógeno: uma versão renovada de Tadzio, o anjo da morte de Morte em Veneza.

Menino vivo mas morto, que não sabe bem o que deseja, que não deixa rastros de sentimento: dele, concluem os outros, é possível esperar qualquer coisa, qualquer gesto, qualquer palavra. Talvez goste de meninos, talvez de meninas, talvez de ambos.

A certa altura, Francis não aguenta: enquanto se deixa esgotar, tomado pelos sentimentos, também revela sua paixão. Diz ao outro que o ama.

Talvez esse novo Tadzio não esteja disposto a ouvir isso: tal enunciado – “eu te amo” – parece deslocado de seu tempo, quando mais valem as relações passageiras, as festas de jovens descolados, as bebedeiras para esquecer qualquer coisa. Talvez o amor tenha envelhecido demais naquele meio em que mais vale o segundo seguinte.

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Pois para Dolan, com seus protagonistas, mais vale o oposto: eles são tomados pelo amor e tentam negar isso. Tanto para o rapaz amado quanto para o amigo.

Esse amor estranho, fechado, é o contraponto ao universo de cores gritantes, com roupas que chamam a atenção, com a mocidade que luta para aparecer. Um pouco diferente de Eu Matei Minha Mãe, no qual os gritos e ofensas do garoto à sua mãe sempre revelavam seus sentimentos, enquanto o lançavam à escuridão.

Entre os melhores momentos do filme está aquele em que Marie reencontra o jovem amado e resolve contar a história de uma carta. Antes, ela havia lhe enviado tal correspondência com uma poesia. Para tentar esconder os sentimentos, simplesmente dá uma desculpa e diz que a carta era para uma amiga.

Para provar ser mais esperto do que parece, o menino (vivido por Niels Schneider) deixa ela sem palavras: questiona se Marie tem algum caso de amor com a tal garota à qual a carta teria sido endereçada. E antes, ele confronta Francis: pergunta, de forma direta, por que o garoto teria achado que ele é gay.

Não se explica com facilidade as intensões, os desejos, muito menos o amor – parece dizer Dolan, que leva as personagens aos tropeços, permeados por confissões de outras pessoas, talvez reais, talvez não. As declarações abrem o filme e se referem a casos de amor que não deram certo. Amores estranhos, como quase todos os casos de amor.

(Les amours imaginaires, Xavier Dolan, 2010)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Os filmes de Xavier Dolan

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