Alain Resnais, vida e morte

Sobressai-se a falsidade nos dois últimos filmes de Alain Resnais, Vocês Ainda Não Viram Nada! e Amar, Beber e Cantar. São obras sobre o teatro, mas construídas com recursos de cinema. Fundem as duas coisas, enquanto atores interpretaram histórias trágicas ou leves, enquanto são os próprios ou outros.

Ambos são divididos em atos, ou capítulos, nos quais a tragédia avança, como a graça e as estações do ano. Há, nos dois, algo em comum com todos os outros filmes de Resnais: as personagens, aqui, devem encarar a finitude da vida.

hiroshima meu amor

Não há outra forma ou caminho. Finitude explorada em Noite e Neblina, de maneira escancarada, e no qual a memória faz com que horrores como o Holocausto não sejam repetidos. A morte retorna em Hiroshima, Meu Amor (foto acima), ou mesmo em Stavisky…, sobre um malandro burguês coberto pela beleza da vida.

E o que dizer, então, de Providence? Resnais, de novo, prova aquele vinho fúnebre mas gostoso, na aurora da vida de um homem que imagina os filhos em diferentes histórias, em um grande filme nem sempre lembrado.

Há sempre um jogo de exagero, teatro, como em O Ano Passado em Marienbad, com suas personagens próximas às estátuas (ou como tais), lutando para viver.

Ou há ainda aqueles seres politizados e contraditórios de A Guerra Acabou: um homem mais velho, cínico e realista, também alguns jovens com a paixão revolucionária, que adoram falar sobre os ideais soviéticos, decididos a explodir o mundo.

Resnais, mais tarde, mudaria. Seus últimos filmes são mais alegres. Mesmo quando parecem evocar tragédias, como Vocês Ainda Não Viram Nada! (foto abaixo), mostram situações felizes da vida: o encontro entre amigos em um castelo para reviverem personagens.

O ponto de partida não poderia ser melhor: um dramaturgo acaba de morrer e convoca um grupo de atores com o qual sempre trabalhou para ler seu testamento. Ao chegarem ao castelo, os atores (chamados pelos verdadeiros nomes) descobrem que a peça, Eurídice, foi novamente encenada e com um elenco jovem.

vocês ainda não viram nada

Eles posicionam-se para assistir ao “teatro filmado”, como se estivessem no cinema. Já morto, o autor deseja saber se aqueles jovens – naquela nova montagem – podem reviver a história de Eurídice e Orfeu – história que todos viveram no palco, justamente sob a direção do dramaturgo morto (ou vivo).

Quando menos percebem, estão a interpretar: soltam as falas, encaram-se, levantam-se. O universo ganha tamanho. Surgem cenários. Não é mero teatro filmado.

Resnais expande a visão sobre a vida, sobre a arte e sobre a falsidade. Justamente quando tudo parece falso e encenado, quando tudo recusa a realidade bruta e chata – como em todos os seus filmes, ainda que alguns tenham a realidade como matéria-prima para o sonho e para a memória, a exemplo de Hiroshima.

Em Vocês Ainda Não Viram Nada!, Resnais apresenta a vida como teatro, e o teatro como vida. O mesmo será visto em Amar, Beber e Cantar (foto abaixo). Neste caso, os atores já iniciam como personagens, igualmente presos a um cenário falso.

Vivem em jardins, falam muito, deixam evidentes seus medos e pecados. Divertem o público como se viu antes em Medos Privados em Lugares Públicos: as pequenas traições e as reviravoltas mudam tudo em questão de segundos.

Amar, Beber e Cantar é baseado em uma peça do britânico Alan Ayckbourn, o mesmo de Medos Privados. Celebra a vida a partir da morte, como Vocês Ainda Não Viram Nada! Nesse caso, três casais descobrem que um amigo tem poucos meses de vida. O amigo doente, apesar de importante, não aparece nunca.

amar, beber e cantar

A obra propõe um interessante jogo com o que está fora de quadro. A partir de Ayckbourn, a morte é aquilo que resta aos que vivem, não àquele que morre. A morte é a demonstração do sentimento dos outros.

Essa peça estranha, a morte, é encenada em vários atos, nos quais as personagens celebram suas próprias vidas para se protegerem contra a dor do outro.

Curiosamente, a personagem ausente vive a vida de forma intensa, tem fama de mulherenga e convida as três mulheres em cena para fazer uma viagem, o que deixa seus companheiros desesperados. Nos diferentes cenários, as mudanças não dependem do que é palpável e pode ser observado.

É teatral e imaginativo: algo para além dos limites do palco, algo que precisa ser encontrado e que, como outros os filmes de Resnais, à contramão do cinema fácil e entregue de bandeja. Com esse capítulo final, o diretor apresenta a morte como vida, a vida como teatro, e o teatro como cinema.

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