A Força do Carinho, de Bruce Beresford

O título original remete à misericórdia. Também, desde os primeiros instantes, é sobre a redenção de um homem que dorme bêbado, perdido, e acorda quase novo – ou novo o suficiente para tentar mudar e redescobrir a vida.

Após idas e vindas, a nova mulher de Mac Sledge, vivida por Tess Harper, explica que ele voltou a beber durante alguns dias e que a recaída foi superada. À frente, Sledge quase sempre aparece revigorado: quando precisa exagerar, corre com sua caminhonete pela estrada, quase bate, e joga uma garrafa de bebida fora.

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Ele está ao centro do belo A Força do Carinho, de Bruce Beresford. Em tom calmo, o filme leva esse homem à certeza de que viverá para ver o mal dos outros – igualmente a pouca beleza nessa triste paisagem texana.

Ele não é mais o mesmo: seu tempo de pecados passou. Foi, e talvez ainda seja, um cantor de sucesso. Canções românticas indicam o coração mais pulsante do que se espera. Por fora, a aparência de uma rocha, o silêncio de quem está mudando.

A partir do roteiro de Horton Foote, Beresford conta essa história simples mas única: o recomeço de uma vida que deu errado, ou talvez porque o acerto – a fama, o dinheiro, a arte – também tenha seu lado ruim: filhos desajustados, vícios, violência.

É na beira da estrada, em um pequeno motel, que Sledge encontra o recomeço: a nova trilha de que tanto precisava, com a mulher simples e seu filho que diz as coisas certas e não exagera por ser criança. É sereno, reclama pouco, fala quando necessário.

O clima leva a pensar que tudo dará certo, dessa vez, para Sledge. No entanto, grandes homens nunca ficam sozinhos. Seu passado persegue. Um jornalista aparece por ali, certo dia, cheio de perguntas. O protagonista esquiva-se, foge de si mesmo.

A matéria do jornal atesta o que alguns pensavam: Sledge está vivo, em nova vida, perdido para melhor, reencontrado para o susto de todos.

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Ali, naqueles campos abertos, Beresford constrói um poema de solidão, a saída aos que desejam ser esquecidos, mas onde, também, máquinas e pessoas – algumas ruins, outras não – aparecem para lembrar o passado do protagonista.

Sledge tem seus fantasmas: a ex-mulher enriquecida, ainda na estrada da fama; a filha que ele pouco conheceu e que, certo dia, bate à sua porta. Não dá para negar o fascínio que o passado exerce nesse presente de calmarias. Há, ainda, a música.

Quando sai para assistir o show de sua ex-mulher, Dixie (Betty Buckley), Sledge persegue a música, tudo o que representa, o que acreditou ter perdido e ainda passa por sua cabeça: letras que não deixa de escrever.

A Força do Carinho apresenta a típica vida americana, com festas regadas à música country, crianças que brigam por causa do comportamento de suas famílias, lanchonetes com máquinas de música e o Vietnã, ao fundo, com perguntas sem respostas.

O protagonista é interpretado por Robert Duvall em grande momento. Próximo de sua mulher, com a enxada na mão, ele solta questionamentos ao fim: por que as coisas são de uma forma e não de outra? Por que um homem morre no Vietnã e sua filha em um acidente de carro? Ele, um sobrevivente, continua para ver tudo e tentar entender. Faz perguntas em meio ao horizonte perdido. Não tem as respostas.

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