48 Horas, de Alberto Cavalcanti

De repente, de forma inexplicável, moradores de uma pacata vila inglesa começam a matar. É uma saída para não morrerem nas mãos dos nazistas, quando estes fingem ser ingleses e passam a dormir em suas casas, em um local quase perdido no mapa.

É a época da Segunda Guerra Mundial. Em 48 Horas, de Alberto Cavalcanti, o ambiente dos primeiros minutos não faz pensar em conflito. Há quietude nessa Inglaterra, comportamento bondoso das pessoas do campo.

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Pois vem o conflito. Ninguém está imune: senhoras educadas, crianças curiosas e agitadas, homens honestos e religiosos, mulheres pacatas e de língua afiada. Surgem outros tipos também, todos envolvidos na mesma experiência maldita. No entanto, o brasileiro Cavalcanti está menos interessado nos horrores do conflito e mais na necessidade de agir quando a pátria está em perigo.

Por isso, cada inglês, até mesmo o mais ingênuo, terá de tomar um lado: ou está com os alemães ou está com seus conterrâneos. E estar do lado certo significa estar pronto para lutar e para morrer. O filme busca justificar, assim, os atos brutais cometidos por gente sempre bondosa, como a senhora que – como em uma fita de horror – joga pimenta no rosto de um inimigo e depois o mata com um machado.

Essa sequência desperta o inesperado, o desespero. Em 48 Horas, o que assusta não é a maldade, mas a permanência da ingenuidade do lado dos heróis, de toda aquela gente comum que passa a lutar, a matar, a pegar em armas para proteger sua terra.

Isso ganha mais relevância dentro da estrutura estética proposta, à base da boa qualidade dos filmes dos estúdios Ealing. Toda uma nação será sintetizada em um pequeno povoado de pessoas amigáveis, local então intocado, como se o tempo só começasse realmente a andar com a chegada do perigo.

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48 Horas é um filme de propaganda contra os nazistas, a favor dos ingleses, que conta ainda com a força dos sinais religiosos. Curioso reparar que a primeira vítima é o padre, morto a sangue frio após levar um tiro. Esses inimigos não são apenas nazistas: são seres demoníacos que não poderiam estar do lado de Deus, diz o filme.

Entre os moradores da pequena vila há um colaborar nazista. Ninguém o reconhece como vilão. Ele articula a operação com os inimigos, vive à espreita, e ainda finge ter um braço machucado. É o tipo de ser desprezível que será morto não por uma grande revelação, mas sim por um pressentimento. Ele é o grande vilão.

Perigo maior, aos moradores, é ter seu estilo de vida ameaçado. Ao entrarem nas casas, os soldados nazistas deparam-se com essas pessoas em seus afazeres diários. Os vilões confrontam a boa vida, o bom jeito de ser, o melhor remédio contra dias perigosos. Em seguida, todos são convocados a irem à igreja para serem presos. “Sou protestante”, diz um velho senhor, quando tenta ficar em casa.

É, assim, o tipo de filme de propaganda que age em dois níveis. Há uma boa história à frente e uma questão ideológica ao fundo: os ingleses são duplos, mas parecem apenas se situar no relevo do homem bom. Nesse caso, como duplos, podem matar e ainda assim conservar a bondade. São irreais, seres de propaganda.

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Por outro lado, o filme funciona como obra de horror – com aquelas sequências de desespero na igreja, com as perseguições na floresta, como se os nazistas fossem alienígenas recém-chegados a um planeta no qual sempre imperou a harmonia.

Não seria o ponto de partida de Vampiros de Almas, de Siegel, em plena paranoia da Guerra Fria? Os alienígenas chegam lentamente e passam a assumir o lugar dos americanos, como se já estivessem ali. Como se todos fossem iguais.

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