Vampiros de Almas, de Don Siegel

Entre os filmes de paranoia, sobre a possível invasão comunista, Vampiros de Almas é provavelmente o mais famoso. Em definição ampla, um filme sobre o medo. Passa-se em uma pequena cidade de gente ou com maneiras robóticas de se portar ou humanas demais para serem indiferentes.

No fundo, o filme é sobre a luta para ser diferente, ter amor, fé, esperança, ser algo além de um humano convertido em legume, ou alguém feito em linha de montagem. Ou seja, estar à contramão da forma como os comunistas pareciam aos americanos.

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Os comunistas são alienígenas. Vêm a Terra para tomar o lugar dos humanos e dominar tudo. Isso não será feito com ataques a céu aberto, naves, grandes armas construídas longe do planeta. Será feito a partir de porões escuros ou estufas de vegetais, tão próximos aos humanos que torna difícil reparar na troca. Tem início a paranoia.

O protagonista, um médico, volta para sua pequena cidade após um congresso. Miles J. Bennell (Kevin McCarthy) é um homem comum. Sua história – ou a história de como o mundo americano começou a ser tomado pelos seres de fora – será feita em flashback, com seu olhar de desespero, relatando passo a passo suas descobertas.

A primeira delas ocorre por ali, na vizinhança: pessoas dizem não reconhecer mais alguns de seus parentes. Uma mulher diz que o tio não é o verdadeiro, mas um duplo, uma cópia. Uma criança diz o mesmo: chora e não reconhece a mãe.

O que parece loucura coletiva será revelado, aos poucos, como um ataque silencioso àquele jeito americano de ser, com seu amor ao próximo, seu cuidado, com aquilo que o próprio médico – sempre correto – sintetiza.

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É um filme-chave para entender a época, ainda que por diferentes caminhos. Curioso é que, ao falar sobre a invasão comunista, revela o medo no seio da sociedade americana. Aprendem a viver assim, em desespero, talvez a ver coisas onde elas não existam.

Quando corre por uma estrada e pede a ajuda, quando grita sem ser ouvido na mecanização evidenciada pelo oceano de automóveis (a modernização), Miles encontra um caminhão cheio de legumes gigantes, os futuros novos seres que tomarão o lugar de homens como ele: americanos corretos que amam seu jeito de ser, que não suportam os iguais, que estão ao lado de mulheres belas e desejáveis (como Dana Wynter).

Uma das sequências mais arrepiantes é aquela em que ele e a companheira veem, pela janela, os caminhões distribuírem vegetais às pessoas em uma praça. O diretor Don Siegel mobiliza essa multidão como peças de uma máquina, como se não fosse um dia como qualquer outro em uma cidade perdida – como qualquer outra.

Resta, ao fim, o rosto inesquecível: Miles contorce-se, de costas à parede, quando suas preces parecem, enfim, realizadas. Os homens que ouvem sua história não acreditam nela. Ele torna-se louco aos olhos dos especialistas. No entanto, algo ocorrerá nos instantes finais. Tudo muda, toma outro caminho.

Esse novo caminho, sobre como os americanos vão combater e vencer aquele mal, não será revelado. À época, a Guerra Fria estava longe do fim e os alienígenas “pareciam” mais próximos do que nunca, entre amigos e vizinhos. Talvez um filme sem fim, cujo fechamento exemplifica o medo da personagem – e de parte da nação.

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