O Relojoeiro, de Bertrand Tavernier

Alguns filmes ganham o público pela aparência de normalidade, de vida comum. Grandeza nas pequenas coisas, costuma-se dizer. O Relojoeiro, de Bertrand Tavernier, é sobre um homem tomado pela dor. Ele descobre, em certo dia comum, que o filho matou um homem. A partir de então, sua vida transforma-se.

Poderia ser um dramalhão na mão de outro cineasta. Tavernier, em seu primeiro longa-metragem, faz uma obra simples sobre a dificuldade em transformar a vida dos outros e a dureza de se aceitar a dor dos outros – já que estes, filhos ou outros parentes, são parte da vida, queira isso ou não. Não há muito a escolher: são laços de sangue.

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Por isso, o pai só pode aceitar. E vai ao tribunal, ao fim, para declarar sua total solidariedade ao filho assassino. Não poderia ser diferente: o pai sempre será esse homem comum, o relojoeiro, o pai que sofre pelo filho que pouco fala.

O cineasta, a partir do roteiro escrito em parceria com Jean Aurenche e Pierre Bost, da obra de Georges Simenon, constrói a caminhada desse homem simples com questões profundas. A certa altura, alguém diz que o crime do filho pode ter motivações políticas, pois matou o líder de uma empresa. Além disso, a polícia suspeita que o filho do protagonista seja politicamente voltado à esquerda.

Ou, ainda mais, poderia ser também um crime de amor – já que o homem morto teria demitido e até abusado da namorada do filho. O relojoeiro, Michel Descombes (Philippe Noiret), descobre, por meio de uma gravação do filho, os motivos que o levaram a matar aquele homem: tratava-se de um “lixo”, diz o menino.

Essa justificativa, para o pai, tornam as coisas ainda mais inaceitáveis. Para público, torna-se uma saída curiosa, pois a morte parece algo banal. O filho, contudo, é um exemplo de convicção: não se deixa dobrar até o fim e aceita seu destino.

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Em qualquer outro caso, poderiam – pai, filho e advogado – encontrar uma saída, uma desculpa, e assim diminuir o estrago. Mais tarde, o pai chora, em uma ponte, devido à condenação do filho. É um momento de grandeza de Noiret, sincero e verdadeiro.

O Relojoeiro, de Tavernier, é sobre insubordinação. Esses homens – pai e filho – só se entendem quando se deparam com o crime – e, por consequência, com a polícia, a Justiça e a imprensa. Essas representações do poder são incapazes de compreender o homem comum, o filho comum e todas as suas particularidades.

No fundo, é pela prisão que o filho liberta-se. Confronta a ordem. Tentou ser livre, fugir, viver o amor, e não estar preso àquela vida que se vive em uma bolha, como uma máquina programada para sempre fazer a mesma coisa – como um relógio.

À frente, após o pai confessar sua dor sobre a ponte, um amigo (Jacques Denis) tem algumas palavras que resumem bem a situação e o filme: “Quando se tem falta de ar, quebram-se as janelas. É sufocante, cara. É sufocante essa merda de país. Vivemos dentro de uma bolha, satisfeitos com o conforto que mantemos e fingimos que ela não vai estourar. Merda!”. À sua maneira, essa bolha estoura.

Como faria mais tarde em Por Volta da Meia-Noite, Tavernier mostra-se mais interessado nas menores reações, na vida comum de gente extraordinária. Curioso ver como Descombes encara a vida, como lida com os problemas, como se relaciona com o filho sempre em busca de um entendimento. É entre a grade da prisão, à sombra do segurança que passa ao meio, que as partes estão unidas: no local menos esperado.

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