Dentro de Casa, de François Ozon

A primeira pergunta é: por que a classe média gera tanta atração? O mais importante, ao menino e ao professor, não são as pessoas que compõem aquela família de classe média, naquela casa “normal”, mas a impressão de normalidade. Ou o que, por meio da ficção, poderá colocar tudo a perder – e destruir essa normalidade.

O que importa, em Dentro de Casa, é a relação do professor Germain (Fabrice Luchini) com seu aluno angelical, porém endiabrado, Claude Garcia (Ernst Umhauer). Tudo começa quando o professor lê um texto que poderia ser banal, no qual Claude relata o encontro com a mãe de um amigo, o menino da tal família normal.

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A qualidade do texto – entre tantos outros ruins, reflexo daquela juventude – chama a atenção do homem mais velho: quem estaria por trás daquela interessante construção? A nova pergunta leva à descoberta de Claude, com seus olhos de príncipe, com seu jeito leve de ser mal, um verdadeiro anjo malvado.

A partir desse encontro, professor e aluno não serão mais os mesmos: o primeiro estará sempre disposto, até certo ponto do filme, a ler a história do segundo. É a invasão àquela vida em família, àquela gente normal, àquela classe que, aos intelectuais, geralmente surge com desprezo. Nas menores partes há algo interessante, e Claude estará ali para descobrir algo e dar continuidade à história em capítulos.

As vítimas são o jovem Rapha (Bastien Ughetto), seu pai e sua mãe. Claude tem uma desculpa para entrar naquela casa: está ajudando o amigo com as lições de matemática. Como ele mesmo dirá, mais tarde, a matemática permite a exatidão não encontrada na literatura. O filme de François Ozon, assim, é sobre o prazer da inexatidão.

Dentro de Casa pode visto como uma versão moderna de Teorema, de Pasolini, no qual um anjo do mal (Terence Stamp) invade a vida de uma família para plantar problemas, desejos, descobertas. Mais do que destruir aquela família, o menino Claude sai em busca do professor. Deseja dominá-lo e dar fim à história.

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O professor, a certa altura, chega mesmo a citar Pasolini, quando ainda acredita ter poder sobre o aprendiz. Em uma cena, ele está à lousa, explicando os detalhes das personagens da ficção, o que as movem. Em outra, é o menino que vai ao quadro, enquanto o professor está em uma cadeira, então dominado.

É sobre estar no mundo, ou criar um. Não se sabe se todos aqueles relatos sobre a família eram verdadeiros. Mais tarde, o espectador perceberá que boa parte não era, ou talvez tudo, ou quase tudo. No terreno da ficção, tudo parece possível – inclusive a destruição daqueles que, envolvidos, de fora, nada podem fazer.

O professor rende-se. “A vida sem histórias não vale a pena”, diz ele. À frente, o espectador também terá de lidar com outra questão: qual a profundidade dessa relação entre aluno e professor? Ozon sugere algo a mais, tal como entre o menino e seu amigo, entre ele e a mãe do amigo, até mesmo com a mulher do professor.

Invade e destrói cada peça – seja na ficção, seja na realidade. O mundo, explica Ozon, pode ser destruído em ambas as esferas, desde que haja mentes para se deixar envolver. E mais: o mundo é um amontoado de janelas – como na sequência final – em que pessoas dão luz a histórias, a ideias, não necessariamente fieis à imagem.

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Saber contar uma história, por fim, é dominar. Prender seu leitor, seu espectador. A arma do menino funciona bem: ele tem para si a atenção do professor. Rompe a barreira que separa os poderosos dos súditos.

Naquela escola em que se passa a história, o professor acha ridículo que os alunos tenham de usar uniformes – cada um como cópia (ou provável cópia) do outro. Clama pela diferença, como se fosse uma batalha entre a inexatidão (da literatura) contra seu oposto (na matemática). Não por acaso, a abertura mostra o aluno colocando seu uniforme, pronto para ir à escola. Por trás dos iguais, o diferente.

Como em outros filmes de Ozon, como Swimming Pool – À Beira da Piscina e O Refúgio, surgem relações improváveis, entre pessoas que colidem e se veem ligadas. Tornam-se dependentes, presas a uma história. Suas vidas mudam da noite para o dia. Um pouco de desejo, talvez. Em Dentro de Casa, o desejo de dominação.

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