Amor Pleno, de Terrence Malick

No interior de um trem, em imagens trepidantes de gravação caseira, a mulher diz ter renascido: ela vai à câmera, desliza pela mesa, cai, brinca e flerta com o companheiro.

São imagens do cotidiano, do amor, de pessoas. Enquanto parecem nada fazer, tudo fazem. Elas vivem: seguem um caminho natural, enquanto o cineasta Terrence Malick tenta mostrar o quanto a vida pode ser bela, dura, e às vezes previsível.

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Sua mulher é a chave de Amor Pleno. Ela era também a chave de A Árvore da Vida: a mãe que traz para si o espírito, a paixão do filho, o contraponto ao pai bruto. Malick é um sábio: consegue converter Olga Kurylenko em uma mulher completa (ou quase) enquanto esculpe Ben Affleck como uma personagem de cinema mudo.

Ele não precisa falar. Move-se. É duro, um homem de botas sujas, um homem que poderia deixar uma mulher à beira da estrada ao descobrir a traição dela. E deixará.

Amor Pleno, fácil definir, é sobre o amor. Malick vai além: é sobre os desdobramentos do amor e a impressão de que nada, nesse mundo doente, pode ser pleno. O título nacional, assim, joga um pouco a favor do otimismo. A eternidade tem a ver com o espírito, com o sobrenatural, mas algo prende as personagens à materialidade.

A mulher, Marina (Kurylenko), ama Neil (Affleck). Eles estão em viagem por terras distantes: aparentemente comuns a ela e estranhas a ele. Ela tem uma filha e já foi casada. O homem desapareceu como poeira no vento. A certa altura, Neil convida a mulher e a filha para seguirem aos Estados Unidos, à terra das oportunidades.

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Há sempre uma barreira. Também uma forma a sobrepor outra: a água que invade lentamente o campo da areia, as folhas secas e mortas que caem sobre a grama verde, o avião que corta o céu e deixa sua marca, a máquina que perfura o chão.

Em jogo estão as questões da terra, questões materiais. Não custa muito lembrar a obra-prima de Malick, Cinzas no Paraíso, em que uma nuvem de gafanhotos destrói tudo ao fim, dando cabo de certo sonho humano. Ao mesmo tempo bíblico e material.

O problema da terra, em Amor Pleno, tem a ver com o homem, e está de passagem. Em determinado ponto, descobre-se a contaminação da água – por consequência, da vida. O relacionamento de Marina e Neil, em paralelo, não anda bem: o visto dela vence e, em um táxi, simplesmente vai embora. Como poeira no vento.

O que Malick traduz, ainda de maneira mais evidente que em A Árvore da Vida, é a fragilidade, a facilidade em se quebrar, em se sobrepor a algo, em se deixar levar às vezes pelo inexplicável. Ao mesmo tempo fortes, as personagens estão em dúvida: flutuam em sonho, nunca prontas para o mundo verdadeiro.

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A fotografia é do ótimo Emmanuel Lubezki, o mesmo de A Árvore da Vida. Pelas questões visuais, pelo rigor com o qual Malick tudo trata, é como se executasse, consciente, uma continuação de sua obra anterior. A origem da vida e o lugar de cada um no mundo ficaram para trás: suas personagens recaem agora ao amor, não apenas ao próximo, mas também a Deus. Brota disso o questionamento: pode ser eterno?

Há um padre em dúvida, vivido por Javier Bardem. Na prisão, ele leva a comunhão aos detentos pelo pequeno vão da porta metálica. Ele – como as outras personagens de Malick – caminha sem caminho: pela rua, à sombra, embaixo das árvores, à porta de uma pessoa, falando com os outros sem falar muito, melancólico.

As criações humanas de Malick parecem se repetir: delas, a vida surge de outra forma, como se mostrassem, em pele, o espírito. Isso é possível a partir de sua direção, na busca por belas imagens, às vezes nos mesmo locais em que esteve, antes, em A Árvore da Vida. Alguns momentos se repetem, até mesmo os enquadramentos. A vida se define às vezes pelo ciclo, pela repetição: eles conhecem-se, amam-se, casam-se, têm filhos. Não há muito a fazer senão crer na eternidade. É uma esperança, um remédio.

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