Três Vidas e uma Só Morte, de Raoul Ruiz

Um mesmo homem tem, pelo menos, quatro vidas em Três Vidas e uma Só Morte. Isso, de cara, contraria o título da obra de Raoul Ruiz, um dos mais inventivos cineastas da história – a quem o tempo, as personagens e toda a estrutura resistem a invadir o que se costuma apontar como real. Para Ruiz, nada é real, tudo é sonho.

Vê-se, por exemplo, a condição da personagem central de Três Vidas: um homem que, mais tarde, revela-se o mesmo, mas que parece ser muitos até certa altura.

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Na pele de Marcello Mastroianni, ele vai da bondade à maldade tão rapidamente que parece dois, depois três, até chegar à quarta figura e dar vez ao enigma: quem é esse homem que assume vários tipos e terá apenas uma morte?

Ruiz não deseja responder. Seu cinema, como o de Buñuel, não tem a finalidade de explicar. Não se sabe quando começam e terminam os sonhos: tudo vaga em uma única cápsula, das boas conversas de bar ao encontro com o psicólogo ao fim – que tenta explicar um pouco, também possui várias faces e termina sem muito a fazer.

Ao todo, são quatro histórias. Pouco a pouco, elas encontram-se. A estrutura é das mais radicais, ainda que o filme nem sempre pareça difícil como é. As histórias são separadas como as personagens de Mastroianni. Ao passo que elas revelam-se as mesmas – será? –, as histórias também têm seus pontos em comum.

A ideia não é complicar. O enigma não é colocado como algo a ser decifrado. O cinema de Ruiz fala das complicações da vida e aqui utiliza as várias de um mesmo homem para dizer que todos, no fundo, podem ser vários sem deixar de serem os mesmos.

Todos morrerão como um só: a solidão perseguirá e, em noites de pesadelo, todos se levantarão de suas camas em busca de algo, e nem sempre saberão o que querem. As pessoas fazem diversas loucuras: pagam para serem ouvidas, tornam-se mendigas, aceitam servir apenas como parte de uma personagem.

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Em seu penúltimo filme, Mastroianni começa como um homem que fugiu de casa. Ele encontra-se com o novo marido de sua ex-mulher. Bebem em um bar e ele conta como teve a vida – e o apartamento – tomada por fadas. Isso mesmo: fadas. Como se vê, não há compromisso com a realidade. Convidado a conhecer o apartamento, o novo marido da ex-mulher (vivida pela ótima Marisa Paredes) é morto com uma martelada.

O trágico e o belo convivem em pequeno espaço. O mais maluco é que esse homem, de um capítulo ao outro, pode ser tão mal quanto amável – e, ainda assim, ser o mesmo. É um dos maiores camaleões da história do cinema, com a pele de Mastroianni para brindar o público com o enigma da vida: as pessoas acreditam ser uma só enquanto vestem suas máscaras à boa convivência. E vivem várias vidas.

A personagem de Mastroianni é a chave que liga as personagens em todas as histórias: uma mulher com uma criança, uma prostituta de peruca loira e exagerada (como em um filme de Almodóvar), um jovem casal apaixonado e uma pianista adúltera.

Ao fim, diz Ruiz, a vida é um grande crime a ser cometido: uma troca de tiros entre amantes, uma luta por sobrevivência, um encontro com o eu passado (a criança com uma roupa impecável, ao contrário do adulto) e uma caminhada à luz do crepúsculo, enquanto uma barca, ao rio, poderá levar ao infinito. Ruiz filma a vida com seus próprios meios e imaginação – o que torna coerente pensar em Buñuel.

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Em um filme anterior, Ruiz filmou a vida de um marinheiro: a história, certa noite, contada a um estudante que acabou de cometer um crime. Há uma promessa: caso esse estudante ouça a história e pague três moedas suecas, ele poderá receber um novo emprego no barco do mesmo marinheiro.

O filme chama-se As Três Coroas do Marinheiro e foi lançado em 1983. A conversa em uma mesa de bar, após o crime, ocupa praticamente toda a obra. Naquele meio, uma clara batalha entre a reclusão e a vida ao mar, pelo mundo. Uma batalha entre a intelectualidade – que, é verdade, remete a Crime e Castigo – e a sujeira das sarjetas, dos encontros inesperados, das doenças e de toda a vida mundana.

Ou seja, Ruiz fala sobre a vida, sonhos e experiências, sobre uma dança que termina à luz do crepúsculo, com o barco e seus tripulantes. Uma feliz aventura.

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