Closer – Perto Demais, de Mike Nichols

Em diferentes momentos de Closer – Perto Demais, todos dizem “eu te amo”: Dan para Anna, Alice para Dan, Larry para Alice, Anna para Larry. Há algo de banal e passageiro, como se tudo tivesse certa validade. Nada é para sempre.

O filme é irônico, quase nada romântico. É cheio de voltas, episódico, trágico em seus diálogos cortantes, na ausência do sexo, ou no sexo como palavra – meio em que termina, sem ir além. Closer, de 2004, é centrado no texto, ainda que a direção de Mike Nichols valorize a posição das peças, os pequenos gestos.

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A impressão é que as personagens têm profundos sentimentos. Talvez, em algum momento, tiveram. É a história de como perderam tudo, reinventaram-se para parecerem as mesmas. E terminaram – cada uma à sua forma – de outro jeito.

É um filme sobre estranhos, o que faz o título irônico. Estranhos não estão próximos. Até mesmo naquela exposição fotográfica – cujo nome é “estranhos” – há apenas uma leve impressão de proximidade, com os rostos a explodir, à frente, como se pudessem ser tocados. Entre eles, o de Alice (Natalie Portman), com lágrimas pela face.

Essa menina é um mistério, a personagem-chave. Ao mesmo tempo uma estranha, dona de uma identidade secreta, é quem parece revelar tudo: a stripper que se despe apenas às aparências em um filme sobre aparências, sobre a ideia de que se pode tocar.

Não por acaso, a primeira frase do filme é dela, direto aos olhos de Dan (Jude Law): “Olá, estranho”. É simples, e é sobre tudo o que virá pela frente. Levado por seus encantos, Dan escreverá um livro sobre ela, como se a compreendesse.

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O espectador, mais tarde, lamenta-se: aquelas pessoas, ao contrário do que aponta o título, não podem ser tocadas. São estranhas. Vivem anos lado a lado e não sabem suas verdadeiras identidades. Quando, ao fim, Dan pede para Alice dizer a verdade, ela simplesmente deixa de amá-lo. Ele afirma a necessidade de jogar limpo, pois isso os torna diferentes dos animais. Para ela, a interpretação é inerente aos seres humanos.

Primeiro, surge com o cabelo vermelho e curto. Depois, preto e curto, também com algumas perucas ao longo do filme – quando “se despe” naquela casa noturna, com brilho, música eletrônica, mulheres de pouca roupa. Entrega-se para não se entregar e deixa que Larry (Clive Owen) veja o menor detalhe de sua parte íntima sem que ele nada veja, pois sequer pode acreditar nela. O dinheiro dele é neutro.

Aos poucos, ele ganha espaço: é o troglodita, o homem que ama Anna (Julia Roberts) com profundidade e, ao mesmo tempo, capaz de traí-la com uma prostituta em uma de suas viagens. É sincero: confessa sua traição e ainda assim diz amar sua mulher.

Ele confessa justamente porque ama, ao contrário dela, que confessa seu pecado justamente por amar outro, Dan. Não dá para saber se ela teria forças para confessar caso ele – o troglodita – não tivesse confessado antes sua escapada.

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Entre todos, Larry é o mais grotesco, o mais fácil de odiar, também o mais real. Outra ironia. Contudo, fácil é amar o jeito leve com que Alice utiliza seu sexo para fazer os homens caírem a seus pés, quando sua aparente pequenez não leva a pensar na força de seus momentos finais, em sua caminhada por Nova York.

O mais triste em Closer é perceber o quanto as personagens tentam se tocar, o quanto tentam não ser estranhas e se entender. E, ainda assim, são seres impossibilitados de chegar ao outro. A aproximação dá-se pela pele, não pela compreensão.

Dan, por exemplo, é craque em eufemismo para criar seus obituários. Ou seja, escreve de uma forma para parecer outra. Joga com a falsidade. Anna acredita ter a capacidade de capturar os outros com sua câmera, mas não pode entender as lágrimas de Alice.

E o que pode fazer Larry em sua busca por sexo pela internet? Nada mais do que se deparar com o acaso, ou seja, com Anna. E se o acaso aqui interfere, talvez seja necessário pensar que as coisas – todas elas – começam assim: um pouco ao acaso, até ganharem densidade, até mostrarem que continuam distantes apesar da aparente aproximação. Estranhos também dizem “eu te amo”.

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