Invocação do Mal, de James Wan

Alguns filmes de terror são feitos exclusivamente para assustar e têm seus ingredientes próprios: portas que rangem, crianças angelicais, espíritos que surgem de repente, reflexos, animais mortos, portas que batem subitamente.

Há mais a ser dito. Nesses filmes, o susto é a alma do negócio: faz com que os marqueteiros tenham ainda mais potencial de fogo em suas campanhas, sobretudo quando podem dizer que a experiência prometida baseia-se em fatos reais.

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Pobre o espectador que ainda acredita nisso. Ver Invocação do Mal e pensar que pode ter sido real soa um insulto. Não se trata, aqui, de uma campanha cética contra aqueles que creem em espíritos e exorcismo. O que se fala, nesse caso, é sobre algo íntimo ao cinema, quando deveria ser apenas cinema, sem pretensão de reproduzir a realidade.

O tom de seriedade incomoda. O trabalho de James Wan é mais um entre tantos filmes de sustos – ou de terror, para quem quiser – a invadir os cinemas e faturar alto.

É uma história já contada, com bonecas aterrorizantes, gente possuída, libertadores que parecem ter saído de séculos anteriores – com um jeito naturalmente bondoso e, de longe, confiável – contra os seres demoníacos de uma casa possuída.

Como explica a personagem de Vera Farmiga, Lorraine Warren, as casas também podem estar possuídas, não apenas as pessoas. É o centro de Invocação do Mal: a história de uma família que se muda ao local errado, à casa que se contorce, que se destrói por dentro, cheia de passagens secretas e, claro, de espíritos maldosos.

É o palco perfeito a criadores como Wan, mais interessados em sustos do que em clima. O primeiro não sobrevive sem o segundo. O susto depende de efeitos. O clima antecede-o. Com o corte ideal, criar um susto não é difícil como parece. O trabalho dos mestres do suspense no cinema é criar clima, ajeitar todo o terreno para o susto.

THE CONJURING

Nesse ponto, o filme de Wan fracassa. Fica evidente que de nada adiantam uma casa, crianças a gritar, uma mãe possuída e explicações dos especialistas – também com seus demônios a lidar – para criar medo nas pessoas. Nesse ponto entra a arte publicitária, para fazer com que o espectador chegue ao cinema com seus gritinhos prontos.

Claro que uma análise de Invocação do Mal não merece ser intoxicada pelos efeitos publicitários. Mas o caso apenas ilustra uma das coisas que, à atualidade, fazem o cinema pior, pois se tenta dar relevo a algo de baixa qualidade.

Isso não é novo. Há quem aplauda O Exorcista, de 1973, como se fosse corajoso e original – e há quem o faça apenas por se tratar do filme sobre a menina que se masturba com o crucifixo, que bate na mãe, que vomita verde no rosto do padre.

O cinema tem seus artifícios para agarrar o espectador. Wan e seu Invocação do Mal utilizam as ferramentas mais próximas à mão, à exaustão, sem necessariamente criar algo a mais, a dar profundidade, com calma, e sem que o espectador sinta-se desafiado. É uma forma direta e crua de fazer assustar – a todo custo.

Nesse meio, uma solução final à trama não pode se dar de outra forma senão com velocidade. No decorrer da obra, tem-se a impressão de algo meticuloso, de que um pequeno artesão dá detalhes àquilo, quando nada mais é do que o velho jogo de antes, a velha história de gente com medo e heróis para resolver o caso. Com as antigas portas a bater, o esperado porão escuro e o espírito perdido de uma criança.

2 comentários

  1. Parei de ler no “É o palco perfeito a criadores como Wan, mais interessados em sustos do que em clima.”.
    Amigo, quem disse que você é crítico de cinema? Wan é mais interessado em susto do que clima? Você não pode ter visto o mesmo filme que eu. O filme cria um clima tenso crescente e te mantem ligado e tenso o tempo todo. É exatamente o oposto do que você comentou, os sustos vem na dosagem certa, não exagerados, nem fracos, nem todo o tempo, nem raramente, tudo no seu tempo certo. Veja o filme de novo.

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