O erotismo de Gustav Machatý

Pequenos detalhes ganham outro significado pela visão do diretor Gustav Machatý. O que lhe interessa é o erotismo, ainda que seja possível ver muito mais em suas obras, como amor, fúria, conflitos internos, relações familiares, morte. Além dos simples rostos de mulheres que sofrem, que desejam, que se entregam à câmera em desespero.

Dois de seus filmes resumem à perfeição esse desespero pelo homem que desaparece, ou simplesmente pelo homem que faz surgir desejos nessas mulheres. Desejos inexplicáveis. Em comum, Sedução e Êxtase trazem ao centro duas mulheres simples, em busca do desejo, da felicidade, de reencontrarem um caminho.

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O primeiro, Sedução, de 1929, é cinema mudo e talvez superior ao segundo. Êxtase, parcialmente falado, é historicamente mais importante por conter aquela que pode ser a primeira cena de sexo no cinema. A heroína do primeiro filme é uma moça simples, de maquiagem expressionista, tal como seu novo – e talvez seu primeiro – amante. A do segundo, uma recém-casada frustrada, depois livre, depois nua, depois entregue.

A Andrea (Ita Rina) de Sedução tem uma surpresa em uma noite agitada – com um cão bravo, tempestade e um trem veloz, todos do lado de fora de sua casa confortável.

Na chuva, um homem é convidado a entrar na casa. O pai de Andrea observa os gostos daquele visitante que abre a mala e mostra perfumes. Tem mais perfumes que a filha do homem: algo impensável a um rapaz do campo, talvez até mesmo à menina do campo privada de certas luxúrias da cidade. Não demora nada e Andrea aparece.

O pai sai para trabalhar. O visitante fica para passar a noite. A menina – tomada pelo perfume, por um beijo em seu dedo da mão e depois em seu corpo – apaixona-se. Dá-se a abertura ao restante: uma história, no fundo, um pouco manjada ao espectador atual. No entanto, uma construção cinematográfica ousada e bela.

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Sobre Êxtase, difícil é não pensar em ousadia ainda maior: trazer o corpo feminino nu, ainda que de forma rápida, em inesquecíveis sequências à beira de um lago. Ao olhar curioso de Machatý, a sexualidade será representada – nos dois filmes – por meio de uma edição que deve algo aos cineastas soviéticos de sua época.

Seu cinema é de vanguarda, de imagens ousadas, de pequenos sinais que fazem pensar no conflito humano quando envolvido com sexo. A câmera faz movimentos ousados, mostra as personagens de cabeça para baixo: um mundo bagunçado e confuso, sobre personagens em busca de experiências carnais e doses de amor.

Machatý – como seria constante à história do cinema – entende que a sexualidade, na tela, depende muito mais da mulher do que do homem. Com Rina ou com Hedy Lamarr, ele apresenta descobertas e rupturas.

Lamarr deixa um rosto à eternidade. É uma jovem vestida de branco, em um cavalo por aqueles campos e suas árvores; segundos depois, está a nadar nua – no mesmo plano – em um lago. A câmera atravessa os galhos das árvores para alcançá-la.

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Logo, seu cavalo foge em direção a outro animal, preso e de sexo oposto. Nua, ela corre atrás. Encontra por ali um homem, que lhe ajuda e, depois, cuida de seu pé machucado. Esse homem será visitado por ela em outro momento. Chega, então, a primeira sequência de sexo do cinema: não a consumação clara do ato, mas planos com detalhes das mãos e do colar quebrado, closes com a excitação de Lamarr. Detalhes caros.

No filme, ela chama-se Eva. Não poderia haver nome mais sugestivo, mais simbólico: é alguém livre em seu próprio paraíso, fazendo com que a vida dos homens seja diferente. Joseph Losey também faria, décadas depois, um filme com outra Eva.

A Eva de Machatý já foi casada. Vê-se nela um passado, uma esperança. Algo a mais. A união com um homem mais velho não deu certo, o que a obrigou a se separar e retornar ao campo, talvez em busca do redescobrimento do paraíso e, com ele, do sexo.

É, em certo sentido, o movimento oposto ao da menina ingênua de Sedução. Mais tarde, ela estará casada, dividirá seu sangue com o marido, estará também próxima de seu primeiro amante, tomada pelo desejo que pode levá-la ao adultério. Nesse caso, o desestabilizador é o homem da cidade, capaz de suscitar na moça estranhas emoções com seu perfume, com seu jeito em parecer único, com sua maquiagem pesada.

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Não resistir é pagar o preço. Não tem jeito: escapar dessa tragédia calculada e bela não está nos planos do realizador. E isso vale para ambos os filmes aqui tratados.

Quando o assunto é sexo no cinema, Machatý torna-se obrigatório. Ninguém mostrou o sexo como ele, à beira de uma convulsão, uma loucura, à beira do inexplicável. Voltam os detalhes: o colar que estoura para representar a carne que se rompe, a campainha que toca para fazer pensar nos desejos íntimos da moça do campo, a chave e a fechadura.

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