Antes do Amanhecer e do Pôr-do-sol, de Richard Linklater

O primeiro encontro entre Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) ocorre em um trem em movimento, quando outro casal, alemão e mais velho, discute por ali. A moça fica irritada com a briga ao lado, vai ao fundo do vagão, troca olhares com o rapaz e logo a conversa tem início.

São dois jovens aparentemente livres, de fala livre, do trem às ruas, bares e vielas de Viena. O diretor Richard Linklater parte da simplicidade para esculpir a química entre ambos em Antes do Amanhecer. Esse casal parece, cada vez mais, diferente, único, mas talvez seja uma impressão. Talvez seja como qualquer outro.

antes do amanhecer

No filme seguinte sobre o casal, Antes do Pôr-do-sol, Jesse e Celine precisam confrontar aquilo que não são mais: dois jovens sem destino, com mais horas à disposição, com mais calor, com vontade de sexo, dispostos a se apaixonar. Nesse sentido, a segunda parte parece – e talvez seja – mais real do que a primeira. É também mais verdadeira, mais adulta, menos nostálgica.

Ambos são filmes sobre o amor. Antes do Amanhecer marca a descoberta, enquanto o filme seguinte – nove anos depois – prefere a dúvida, o impasse, a força ainda maior do diálogo para, com algumas besteiras verbais, descobrir aquele jovem casal apaixonado e livre de antes. A tristeza da segunda parte reside aí: na forma como não parece triste mas é, na maneira como faz as personagens parecerem livres quando não são.

Linklater, à primeira impressão, apoia-se apenas em diálogos. Nos dois filmes, a dupla anda e fala sem parar – e, quando para, sobretudo em Antes do Amanhecer, estão ainda a despejar o amor aos cantos, fazendo com que ele surja da brincadeira inesperada.

A primeira parte é sobre a impossibilidade de lidar com o futuro. A segunda, sobre como esse futuro – não importa o que se faça, o que se mude, o que se agarre – bate à porta e cobra uma reflexão, olhar para trás.

antes do por do sol

Antes do Pôr-do-sol mostra como esses amantes passageiros fizeram para lidar com a constatação de que não iriam mais se encontrar. Ele escreveu um livro, ela fez uma música. Entre essas amostras de arte, o diretor insere o reencontro, o caminhar, a Paris calma e pouco povoada sob o sol de uma tarde agradável.

Se antes a Viena de figuras curiosas confrontava a cada instante – com um poeta, uma cigana, dois amigos atores –, a Paris nada mais faz senão ser um palco, um local calmo em contraponto aos questionamentos das personagens, pouco a pouco à mostra.

Vale lembrar que os beijos e o sexo de antes também dão vez ao diálogo. Quando se é adulto, diz Linklater, o desejo do instante perde um pouco sua força. O casal volta ser confrontado ainda mais pelo tempo, com menos horas, na segunda parte, para estar unido. Jesse tornou-se um escritor de relativo sucesso, foi a Paris lançar seu livro – sobre o encontro passageiro entre um jovem casal, ou seja, sobre a história de Antes do Amanhecer – e, dentro de algumas horas, tomará seu avião.

Quando um repórter, na livraria, questiona-o sobre o fim ambíguo de seu livro, sobre aquele encontro marcado entre os amantes, fica claro que Jesse não soube lidar com o caso. Isso porque ele foi ao encontro combinado no encerramento de Antes do Amanhecer, enquanto Celine não apareceu.

antes do amanhecer2

Nesse tom, difícil é saber quem está mais apaixonado, mais disposto a se entregar: quem deverá ceder para mudar o rumo da história e, talvez, partir a um relacionamento sério. O cineasta não deixa saber muito sobre suas personagens. Seus seres são fechados, sem muito a revelar além de histórias, sem novas imagens do passado, à tela, senão aquelas do primeiro filme que retornam na continuação.

O segundo tem a mágica que falta ao primeiro: clara amostra da evolução de Linklater. Não apenas as personagens (e os atores) amadureceram. A própria narrativa e construção visual ganharam densidade e, no melhor sentido da palavra, simplicidade. Em Antes do Pôr-do-sol, a vida é como deve ser: um emaranhado de conversas ora sem sentido, ora deliciosas e produtivas. Os seres frágeis surgem depois.

O primeiro filme tem um gosto de sonho, uma noite de sexo ao escuro, oculto, que dá vez a uma manhã com os jovens ao chão, ao lado de uma fonte envelhecida. Nesse caso, o casal destoa: é a juventude contra aquela amostra da velha Europa.

Os diálogos trazem ao espectador as imagens que o filme – e a própria vida – não podem mostrar: imagens mentais, imaginadas por cada um à sua própria forma. Até o fim da segunda parte, continuam a contar histórias, a falar de outras coisas enquanto revelam muito sobre si próprios, a fazer o espectador acreditar na verdadeira paixão.

5 comentários

  1. “A primeira parte é sobre a impossibilidade de lidar com o futuro. A segunda, sobre como esse futuro – não importa o que se faça, o que se mude, o que se agarre – bate à porta e cobra uma reflexão, olhar para trás.” Essa frase sintetiza as narativas de ambos os filmes, e, quem sabe, da vida real. Talvez, o “futuro” aí seja o “destino”, né? Ótimo texto, rapaz…

  2. “…a vida é como deve ser: um emaranhado de conversas ora sem sentido, ora deliciosas e produtivas. Os seres frágeis surgem depois.”
    Texto padrão de qualidade “Rafael Amaral”. Gostei!
    Mas ainda falta o fim dessa história, quero ler depois.

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