Selvagens, de Oliver Stone

Houve um tempo em que Oliver Stone – quando fazia filmes mais interessantes e com algo a dizer – não precisava apresentar um encerramento duas vezes. Não voltava a fita para dar uma segunda chance, ou para ser mais franco com o espectador. Com apenas uma imagem, um fim, ele reproduzia muitas coisas em um mesmo quadro.

Vale lembrar, por isso, o encerramento de Platoon, ou de Nascido em 4 de Julho, com a ambiguidade que deixava suas personagens entre monstros e heróis, entre presos e absolvidos: o homem, em qualquer caso, não se resolvia. Não havia motivos para rir.

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Claro que Selvagens, de 2012, não quer a seriedade das duas obras citadas, lançadas nos anos 80 e que valeram a Stone seus Oscars como diretor. Nada disso. Ao falar do tráfico de drogas entre Estados Unidos e México em cores fortes, como se mergulhasse em um videoclipe, o diretor faz uma comédia cruel com doses de ação e várias personagens.

O problema é que Selvagens nunca se define entre a seriedade e a graça. Talvez flerte com ambas, segundo Stone, para reproduzir um mundo atual no qual os matadores se divertem com seus celulares, ao fazerem vídeos caseiros e colocar tudo na internet.

Mais ainda, o México de Stone mudou. Os mexicanos não são mais aqueles refugiados sujos entre fronteiras, seres sem família e sem pátria, dispostos a qualquer trocado para fazer um serviço rápido ao coronel. Sim, Stone deixa de lado aquelas figuras de Peckinpah, ou outras de fitas recentes sobre a questão.

O ponto de partida dá-se na Califórnia ensolarada, com belos corpos, com gente feliz à praia – com drogas, mulheres e baladas. Homens, nesse meio, usam armas como brinquedos, dirigem carros conversíveis e caros com o dinheiro do tráfico. A mulher vai se esbaldar em um shopping e faz compras também com o dinheiro da droga.

Entre Estados Unidos e México, as drogas fornecem o prazer da compra, da ostentação, e o título do filme – dito por homens de diferentes lados, sobre os inimigos – faz pensar se ainda há selvagens em meio a essa vida regada a luxo e modernidade. A selvageria está escondida, com mortes e sequestros, e todos – ou quase – são animais raivosos.

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Ao centro estão dois amigos, Chon (Taylor Kitsch) e Ben (Aaron Taylor-Johnson), traficantes “boas-vidas”, “confiáveis” aos olhos do espectador. Traficantes – ao contrário dos mexicanos mal encarados – com belos rostinhos americanos.

Entre eles há a beldade Ophelia (Blake Lively), loura um pouco sem cérebro, amante de ambos, a mesma que, a certa altura, fará compras em um shopping para passar o tempo e será sequestrada pelos inimigos. Seus rapazes entram em desespero.

Do lado mexicano há a bela baronesa da droga, Elena (Salma Hayek), com uma filha que estuda no país vizinho, com belos cavalos brancos, com gigantes mansões a abrigá-la – dos dois lados – e diversos capangas. Aos poucos, a partir do roteiro que ajudou a escrever, Stone costura essas vidas para dizer que não há qualquer fronteira entre México e Estados Unidos quando se tem dinheiro, poder e um pouco de oportunismo.

Todos se misturam, todos jogam o mesmo jogo, todos gostam do mesmo dinheiro e se divertem. Por isso, o fim não poderia ser outro senão uma brincadeira: a troca de duas garotas sequestradas, uma loura por uma morena, uma americana por uma mexicana. Em seguida, um banho de sangue sem ninguém levar a mínima vantagem.

A comédia de Stone será sentida quando esse suposto fim trágico dá vez a outro – sob a narração de Ophelia (uma história inconfiável, pois é possível que ela nem sempre tenha se mantido em sã consciência). O novo ponto final é mais coerente: uma vitória da comédia sobre a tragédia, ainda assim sem qualquer empolgação.

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