A Culpa de Voltaire, de Abdellatif Kechiche

O problema do imigrante árabe na França é apenas uma saída para o diretor Abdellatif Kechiche revelar um país frio e impessoal. Nesse terreno nasce uma improvável história de amor entre excluídos: um imigrante tunisiano e uma menina de aparentes problemas mentais. Eles descobrem um ao outro em um hospital psiquiátrico.

Essa descoberta do amor demora um pouco. Antes, A Culpa de Voltaire dá algumas voltas. O protagonista acredita estar apaixonado por outra mulher, a funcionária de um bar, e se envolve em um casamento para conseguir se estabelecer na França. No entanto, há nessa relação mais do que uma simples conveniência: ele está apaixonado pela moça.

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Jallel (Sami Bouajila) mente, na abertura, ao se dizer um perseguido politico da Argélia. Dessa forma, consegue um visto de três meses para ficar na França – tempo suficiente para fazer amigos, amores, alguns trabalhos e pensar em um plano B.

O que está em questão, no filme, é a sobrevivência. Ainda mais, a resistência de um homem em um universo no qual a impessoalidade reina: casamentos arranjados que custam caro, sexo por alguns trocados ou mesmo para conseguir cigarro, autoridades interessadas apenas em números ou em cumprir seu trabalho.

Kechiche alterna sequências feitas com proximidade àquele duro encerramento a distância, quando o país em questão enfim é desmascarada da forma mais dura possível. Chegar ao pior era questão de tempo para o diretor.

Em suas andanças, Jallel descobre um local para ficar e faz amigos por ali. Passa a vender frutas no metrô, a vender jornais, mais tarde a passar de bar em bar oferecendo rosas aos casais – o que não quer dizer que haja ali qualquer romantismo. Ao contrário: o universo de Kechiche tem poucas cores, com a imagem granulada.

O rapaz, em um bar, descobre o prazer da música árabe, dos gritos, da farra – quase se sente em casa. De novo, mero engano. É por ali, também, que conhece a bela Nassera (Aure Atika), balconista por quem ele apaixona-se.

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A exemplo do protagonista, a moça está em busca de um caminho. A certa altura, já de branco para casar, ela decide mudar o rumo: foge do compromisso e do olhar de todos. Passa a imperar por ali, também, a fragilidade dos relacionamentos, o que faz Jallel desconfiar das palavras da maluquinha Lucie (Élodie Bouchez).

É em uma estada em um hospital psiquiátrico que ele descobre essa mulher que se comporta como criança, sempre em busca de sexo e cigarros. Os outros avisam o recém-chegado: bastam alguns trocados para fazer sexo com ela. Jallel fica desconfiado, distante e, mais tarde, de volta à sociedade, ele descobre que ela está grávida.

A partir de então, Kechiche leva-os a uma aproximação cada vez maior. Em uma bela sequência perto do fim, ela passa a boca sobre o corpo dele, deitado, antes e depois de ajudá-lo a embalar as rosas para vender no metrô. Em outro momento, ele cita uma poesia e ela, em seguida, leva as flores aos passageiros, para serem vendidas.

É um filme de amor que não nasce como termina: para o diretor, tudo está em transformação, à exceção do fundo, sempre o mesmo, duro e inacessível. À frente, o protagonista é vítima de sua paixão e idealismo, de sua crença em um mundo um pouco melhor. Para alguém como ele, restam apenas a expulsão e a intolerância.

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