O Vingador do Futuro, de Paul Verhoeven

A chegada do herói ao planeta Marte, em O Vingador do Futuro, anuncia o esperado: o filme em questão utiliza todos os seus recursos e seu gordo orçamento para negar um cinema com trama de contornos “sérios”. Prefere o bizarro.

Mutantes surgem por ali, tal como um prostíbulo futurista habitado por mulheres de três seios, recheado de caricaturas, homens estranhos, como se todos fossem a ralé futurista e ainda assim com algo de bom. Do outro lado há uma ditadura malvada contra o herói, vivido pelo astro grandalhão Arnold Schwarzenegger.

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Quando se espera por mais seres estranhos, o diretor Paul Verhoeven insere na história – de passagem – uma prostituta anã, que chega a sacar uma arma e atirar contra os soldados vilões. É como se Monstros, de Tod Browning, fosse levado ao espaço e mostrasse ao espectador a proximidade entre seres humanos e pessoas consideradas anormais: um dos trunfos dessa obra propositalmente falsa, como nos sonhos.

É a partir de um sonho, por sinal, que começa a corrida do herói. Ele acorda em belo dia ensolarado, com uma linda mulher (Sharon Stone), e relata a ela seu sonho, justamente ocupado pelo oposto: ao invés da Terra, Marte; ao invés da loura, a morena.

Sem saber, Douglas Quaid (Schwarzenegger) já é um alienado: trabalha como operário, todos os dias, e tenta tirar alguns conselhos de um amigo de trabalho. Ele está seduzido pela ideia de implantar memórias, graças a uma empresa que possibilita isso.

Nesse futuro curioso, cheio de cores e de cenários falsos, os sonhos são como tudo o que rodeia o herói: um parque de diversão saboroso, sob a imagem do algodão doce. Ou seja, sob os aspectos do sonho, do desejo, para talvez esquecer os ditadores.

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Nesse futuro, os homens não colonizam mais países. Chegou a vez dos planetas. É possível viajar a todos eles e ter aquelas velhas dores de cabeça com malas, atrasos e todas as particularidades de uma viagem. Para o operário Quaid, uma viagem mental – uma mera memória implantada pelo custo de alguns créditos – é mais sedutora e fácil.

O problema é que Quaid teve memórias apagadas e a implantação de outras o leva à sua realidade anterior: a vida de agente secreto, em Marte, justamente a terra à qual é atraído – apesar de todas as outras pessoas tentarem convencê-lo de que o planeta vermelho é, na verdade, um local chato. Talvez tenham razão.

Mas Verhoeven, a partir de uma história de Philip K. Dick, não se convence disso com facilidade. Seu planeta tem algo além do vermelho. Possui figuras engraçadas, tiroteios, máquinas de escavação para destruir rochas, táxis minúsculos, muita sujeira e pessoas que se escondem como ratos. Há, claro, aqueles rebeldes com boas intenções.

No meio das rochas escondem-se alguns mistérios relacionados a aliens e, como se verá, esse Marte absurdo e engraçado poderá ser outro planeta Terra. Tudo, no entanto, pode não passar de um sonho: simplesmente uma memória implantada em Quaid.

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Em um oceano de exageros e partículas curiosas, Schwarzenegger é naturalmente outra falsidade. O “homem músculos” ajuda o material com sua interpretação quase sempre canhestra, com seu jeito que nunca chega a ser sério. Convence sem convencer: uma inversão. O que, vale dizer, é ótimo a um filme que não quer ser sério.

O diretor entende isso. Para ele, vale tudo. Como no posterior Instinto Selvagem, a representação suprime a verossimilhança. Em O Vingador do Futuro, sonhos misturam-se ao infinito sistema solar, com o dinheiro dos estúdios despejado em mais metáforas do que se imagina – e com toda a estrutura a favor da diversão.

Marte, do vermelho ao azul, do inferno ao céu, pode ser interpretado politicamente: uma representação de um país comunista prestes a ruir, dominado por um ditador malvado e que nega o básico a seus habitantes: o oxigênio.

Por trás da diversão, afirma Verhoeven, muitos mistérios estão escondidos. O bizarro nunca é um problema. O diretor delicia-se com ele, com um toque de seriedade – que mais parece sonho – quando um mutante adulto abraça uma criança mutante. Ambos contemplam o novo céu azul. Estão salvos, e continuam falsos.

3 comentários sobre “O Vingador do Futuro, de Paul Verhoeven

  1. É bem isso mesmo, Rafael. Revi esse grande filme ontem e só então percebi a grande brincadeira que ele faz com a seriedade encontrada em qualquer obra de ficção científica. Isso sem falar na questão “realidade versus sonho”. Se no mundo atual já fica difícil distinguir a verdade da mentira, imagine em um futuro no qual se pode construir os fatos com um simples implante?

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