Os mistérios de David Locke

Pelo deserto, em terra estranha, o passageiro e repórter – ao mesmo tempo – é alguém perdido, em busca de um significado à sua jornada, alguém atolado na areia. Assim é a personagem central de Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni.

Não há muito a explicar sobre ele. Pouco se sabe. Quando sua morte é anunciada, um suposto amigo, na televisão, diz coisas boas sobre ele, David Locke (Jack Nicholson). Mas o que o espectador é levado a ver – ou a crer – é outra coisa: o mesmo homem não é um sucesso a si mesmo. Ele quer mudar, ser outro. E encontra a oportunidade.

kinopoisk.ru

Ele troca de corpo, de papel, com um vizinho de quarto, na África, quando estava em busca de uma reportagem sobre conflitos no outro continente. Ele já conhecia aquele homem morto chamado David Robertson: alguém pouco explicado, como Locke, e que já rondava os ambientes antes de o espectador chegar.

Assim, após a troca de fotos nos passaportes e de quarto, tal como a importante troca das camisas, Locke passa a ser Robertson – e ambos continuam a ser David.

Sim, um mistério, ou mesmo uma ilusão – mais uma – do mestre Antonioni. Mais uma vez, surge o questionamento sobre identidade, sobre o que é real ou não.

Ainda naquele hotel da abertura, quando acaba de chegar, Locke diz uma única palavra a um funcionário: “Água”. Curiosamente, aquele hotel cerca o protagonista com o azul de suas paredes, como se o homem estivesse inundado em algo que não tem.

Locke, ou Robertson, é alguém em busca de algo, e não deixará claro o que deseja. Nesse ponto, é alguém a figurar ao lado do atrevido repórter de moda da obra-prima Blow-Up, também de Antonioni. Em um passeio pelo parque, esse homem acredita ter fotografado um assassinato. Suas imagens levam a crer nisso. Mas nada é certo.

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O protagonista de Nicholson – que se parece com o outro homem, morto, vivido por Charles Mulvehill – tem, como a personagem de Blow-Up, uma oportunidade de mudança: talvez não ser mais o repórter de guerra, ou o fotógrafo de moda. Talvez (não se sabe) poderá ser alguém livre, ou alguém com o direito de recomeçar.

Ao atolar seu jipe logo no começo de Profissão: Repórter, após uma viagem começada e que em nada deu, David deixa claro sua condição: a de um homem paralisado em um mundo em movimento, de dunas que se mechem a todo o momento, mas que não permitem à paisagem ser diferente do que é.

A ele não resta nada senão voltar ao hotel, a pedir água. É então que encontra o corpo do amigo, é então que tem a ideia de se tornar ele – ou mesmo de ser outro qualquer.

De sua camisa xadrez, em duas cores, ele passa a usar a camisa azul do amigo. Passa, assim, a se definir, a encontrar um único tom. Relembra, também, os diálogos que teve com o Robertson ainda vivo. Enquanto o suposto amigo e também viajante diz que os lugares do mundo são sempre os mesmos, Locke aponta ao oposto em sua argumentação: “Não. Somos nós que não mudamos”.

O jeito, então, é mudar, ser outro, vestir uma nova personagem: justamente o que fará esse David Locke indefinível e difícil de descrever. Ele torna-se mais um dos mistérios de Antonioni, peça central no universo de questionamentos do cinema.

Ao se tornar Robertson e ainda assim ser David, Locke foge de um país, de um emprego e de uma mulher. Como questiona o crítico José Geraldo Couto, “será possível viver uma nova vida, escapar de si mesmo, das raízes, relações e lembranças que formam uma identidade tão inapagável quanto uma impressão digital?”.

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