A Promessa, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

O que move o garoto de A Promessa, de Jean-Pierre e Luc Dardenne, talvez não seja a promessa, mas a culpa. Contudo, qual culpa pode carregar um menino indiferente a qualquer amostra de sensibilidade em um mundo brutal? É justamente à sensibilidade que os irmãos cineastas desejam chegar.

Ao centro, um menino frente à morte, tomado pelo silêncio exigido pelo pai, pela dúvida de dizer ou não à mulher da vítima sobre sua morte. Como nos filmes seguintes dos Dardenne, diversos dilemas recaem sobre personagens tão distantes da câmera quanto do público, tão intrigantes quando aparentemente vazias. Eis o desafio: cavar no fundo delas a emoção, o apreço, talvez alguns traços de personalidade.

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O menino é Igor (Jérémie Renier), com sua pequena moto de um lado para outro, cuja primeira sequência – em seu trabalho como aprendiz – revela logo quem ele é. Para faturar alguns trocados – como o mesmo Renier de A Criança, de 2005 –, Igor é capaz de tudo. Roger (Olivier Gourmet), seu pai, fornece-lhe carinho apenas quando lhe convém e, por isso, é óbvio que o garoto só pode ser guiado pela materialidade do dinheiro, pela necessidade de se dar bem com a compra, a venda e o consumo.

O produto, aqui, são seres humanos: imigrantes ilegais trazidos à Bélgica por Roger, abrigados em quartos pequenos com diversos problemas de estrutura, como se fossem animais em pequenos quadrados sem janelas. Um dos imigrantes, a determinada altura, reclama do local, pois cheira mal. Roger faz uma proposta: se eles o ajudarem a reformar o prédio, receberão descontos na mensalidade. Todos aceitam, todos passam a trabalhar nessas obras. Igor corre ao meio, não tem domínio sobre quase nada e – pelo buraco da parede – observa uma nova moradora do local.

A morte do marido dela, ao cair do alto da construção, coloca o mundo de Igor de cabeça para baixo. Fala-se do mundo interno, o que causa uma confusão sobre o que é a moral, sobre responsabilidade. Pouco a pouco, após prometer ao homem prestes a morrer que cuidará de sua companheira, ele descobre uma porta de entrada ao mundo adulto. Crescer, contudo, significa se despregar do pai corrupto, cujo desejo é ocultar o cadáver e fazer com que a mulher da vítima vá embora o mais rápido possível.

Dois temas comuns perseguem o filme e perseguirão os trabalhos posteriores dos Dardenne: o ser humano convertido em mercadoria e a paternidade. À junção soma-se a câmera fria dos diretores, com um drama reflexivo sobre a impessoalidade dos tempos atuais. Igor, ao meio, é então esse enigma banal apenas às aparências, com o vento no rosto em suas corridas com a moto, em suas investidas noite adentro quando deve ajudar a mulher e seu pequeno bebê, desprotegidos.

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Igor é uma esperança. Irônico, portanto, que o desfecho não seja revelado – ou revelado por completo. Estranho que sua caminhada não conte o que com ele deverá ocorrer, ou se sequer conseguirá cumprir sua promessa. A cena final liga essa figura à culpa que carrega, pois não conseguirá esconder o que sabe: a morte do imigrante. E o voltar para trás dá luz à ideia de um trauma longe de chegar ao fim. Não importa o que se faça, afirmam os Dardenne, nada poderá ajustar esse passado amargo – mesmo quando parece mero acidente, indesejado a qualquer um por ali.

Ao longo do filme, Igor ganha um anel de seu pai. É um símbolo de ligação entre ambos, mesmo que o pai, em determinada altura, peça ao garoto para ser chamado de Roger. As posições familiares são abolidas nesse túnel escuro: cada personagem, como em uma grande empresa, deve ser chamada pelo nome. Quando o imigrante sofre o acidente e o menino deseja colocar um cinto em sua perna, para parar o sangramento, o pai simplesmente retira o objeto – como se retirasse outro objeto circular, o anel.

É um momento de quebra, de transformação: um reajuste ligado ao sangue que faz o menino se transformar, estar à porta do mundo adulto. O sangue ao qual Igor entregar-se-á é o do imigrante, o da mãe sem marido, o do bebê sem pai. Nada a ver com aquele ódio natural dos homens do velho mundo – como Roger, ou como aqueles motoqueiros vadios ao alto da ponte, que urinam sobre a mulher.

O filme cobra algo a mais do público e explica o cinema dos irmãos Dardenne: é necessário reparar nas pequenas partes cotidianas para se descobrir o interior – ou parte dele – da personagem central. Ela fez 14 anos, ainda é virgem e descobre – sem querer descobrir – que a morte do próximo pode transformar tudo. Culpa-se, corre em busca de sua promessa e não pode mais ser indiferente àquela estrutura social.

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