Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes

Os recortes propostos por Miguel Gomes e sua equipe de filmagem dão vez, aos poucos, ao filme dentro do filme. O trabalho que ele deseja fazer (e fez) e, ao mesmo, o olhar para trás: Gomes não consegue deixar a feitura, os pedaços, os rostos, a gente.

Aquele Querido Mês de Agosto é um filme de retorno – ainda mais do que uma mistura de documentário e ficção, como é frequentemente descrito. Traz a passagem à encenação após apresentar pessoas verdadeiras em seus afazeres, em suas músicas, em suas rotinas e encontros. O diretor está em cena: conversa e reclama, duvida, parece sério e questiona quando as peças de um jogo de dominó são derrubadas.

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O filme tem mensagens ocultas, também mensagens claras. Antes de chegar à encenação, Gomes pede por depoimentos: deseja conhecer um a um com paciência. Histórias vêm à tona: o rapaz que salta da ponte, a menina que vigia a floresta, os cantores de músicas melosas, os motociclistas, o estrangeiro. Por ali é possível acompanhar também o trabalho do profissional responsável por captar o som da natureza. Um filme é realizado e não há qualquer tendência em ocultar isso. Tudo está às claras, à exceção da passagem da realidade à encenação, natural e interessante.

A ficção leva o público à história de uma garota, Tânia (Sónia Bandeira), filha de um homem um pouco sisudo, às vezes autoritário. Ela está apaixonada pelo primo, Hélder (Fábio Oliveira), e, ao que parece, a reciprocidade é verdadeira. Antes mostrado em um jogo de hóquei, o menino canta e toca guitarra na mesma banda da moça. Depois, eles são vistos a nadar, a caminhar pela cidade, no alto dos morros.

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A trama não gera interesse. Sua grandeza parte dos detalhes, das imagens, das fusões milagrosamente acertadas. A paisagem de Gomes tem uma beleza impar, ou talvez seja exagero dizer isso. A beleza é natural, mas grande. Há uma demonstração clara de controle, de cortes e de posição das supostas “peças” e “tempos”. Gomes lida com recortes com habilidade. Vai à pequena cidade de verdade para falar com gente e utiliza essa mesma gente, mais tarde, como personagem.

Prefere a relação entre o antes e o depois, entre a realidade e a ficção. Nem uma nem outra. Prefere as duas e chega a uni-las em momentos grandiosos, como o choro de Tânia, ou Sônia, na despedida do amado. O choro dá vez ao riso, à mistura, o que sintetiza o filme. Não importa se foi programado ou não. Revela-se tão natural quanto verdadeiro. Aquele Querido Mês de Agosto consegue emoções nunca pela história que deseja contar ou pelos relatos dos entrevistados. A grandeza está em imagens capazes de extrapolar a simples amostra da natureza e a música.

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