César Deve Morrer, de Paolo e Vittorio Taviani

Interessa, aos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, o ensaio. A apresentação teatral é como parece ser: teatro filmado, em ambiente realista, um resultado. O ensaio é maior: para dentro da prisão, encurralados por paredes, muros, celas, grades, corredores envelhecidos, os presos transformam-se nas personagens de Júlio César, de William Shakespeare, em César Deve Morrer. Os Taviani contam essa história que não parece bem uma história convencional. Pouco se sabe sobre os presos e mais sobre a peça, a conhecida peça levada outras vezes ao cinema, nem sempre de forma tão original.

Shakespeare toca o poder o tempo todo. Os Taviani transformam a prisão – como a coragem de alguns homens – em um canal para contornar a condição do preso – condenado a anos de clausura ou mesmo à prisão perpétua. Ao confinado, apenas à luz do sol, resta a arte como resposta. A arte liberta. “Desde que conheci a arte, esta cela se transformou em uma prisão”, narra Cosimo Rega, ao deixar sua personagem da peça, Cássio, após a apresentação da abertura.

Cosimo foi condenado à prisão perpétua, por homicídio. A informação chega quando seu rosto, à tela, é banhado ao preto e branco. Tal como outros, ele foi levado à ficção, ao passo que os Taviani permitem uma feliz mistura entre arte e vida, entre o que parece ser documentário e o que deixa de ser. O resultado é uma preparação para Júlio César em puro cinema, ao preto e branco, diferente do mero teatro filmado, proposital na abertura e no fechamento.

Os irmãos diretores não estão preocupados em fazer o público entender a realidade, mas em fazer valer a arte. O que sempre fica é a expressão, o produto, o humano revelado aos poucos e às beiradas. Econômicos, os diretores mostram controle: levam o espectador aos homens pela peça conhecida, não às vidas particulares, às histórias passadas. Os homens só são homens de verdade – ou voltam a ser – quando mergulhados na arte. O crime e a realidade não compensam: ficam para fora.

Ora ou outra, claro, a realidade é presente. Ora ou outra esses homens saem das personagens, sentam, pensam, entristecem-se e simplesmente – pela condição de presidiários – voltam a ser quem realmente são. A tristeza não pode ser evitada e as portas metálicas das celas são mostradas em cores, pois a arte, aqui, chega pelo preto e branco. O ensaio é transformação, vivência, passagem. A apresentação é o resultado final, junção, no palco que nada lembra a verdadeira prisão.

César Deve Morrer poderia ser irreal caso não fosse o oposto. Seu significado vai além da mera preparação de um grupo de atores. Em certo ponto, eles passam às personagens, a ouvir – como o espectador – o que antes era exclusivo ao texto e, ainda mais, à imaginação. Em um dos vários momentos fortes, Antonio Frasca, como Marco Antônio, fala à suposta população, próximo ao corpo de César. Leva todos ao ódio. Outros presidiários escutam o companheiro a partir de suas janelas. Pulam e se debatem.

Diferente de Marlon Brando, na pele de Marco Antônio na famosa versão de Júlio César de 1953, Frasca tem atrás de si apenas uma parede. Uma parede alta. É como se os Taviani – mesmo pelo fundo, não pela frente – lembrassem o público constantemente daquela condição. Não é Shakespeare por inteiro, tampouco real por inteiro. Longe da Hollywood de Brando, não há uma escadaria, não há um cenário recriado. Fica o discurso inflamado, ao preto e branco, à base da arte que liberta e do cinema que funde tudo: nada é real ou ficcional por completo. Tudo se confunde em ensaios sobre o poder, o sonho do poder, da força, da redenção. A arte confronta o pior dos sons, o som da cela que se fecha, contemplada pelos Taviani como algo sem qualquer graça, morto, ironicamente em cores.

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