Pistoleiros do Entardecer, de Sam Peckinpah

A paisagem amarga de Pistoleiros do Entardecer, com a ausência do sol quando os homens chegam à cidade dos mineiros, certamente deve ter inspirado Robert Altman. Menos de 10 anos depois da obra de Sam Peckinpah, o outro americano fez Quando os Homens são Homens, talvez a visão mais dura da América a chegar às telas – ao mesmo tempo melancólica e desestimulante. Em ambos, o fim da linha às personagens: a miséria entre neve e barro, à sombra das montanhas, sob o risco constante.

Peckinpah começa com o clássico, com o velho pistoleiro honesto. Ele não é bem recebido na cidade em que acaba de chegar. Pensa ser o maioral, por momentos: acredita que o aplauso de todos é para ele, quando todos, na verdade, esperam pelos jovens em uma desenfreada competição. O mundo mudou para o pistoleiro Steve Judd (Joel McCrea). Mudou também para um velho companheiro, sob o peso da idade, fantasiado, quase um artigo de circo esculpido pelo irônico Randolph Scott.

Judd tem um trabalho: ir até a cidade maldita, a cidade dos mineiros, e retornar com alguns quilos de ouro para entregar ao banco. Diferente da personagem de Warren Beatty, ele não quer jogar, envolver-se, mas cumprir seu contrato: quer transportar e, ao fim, ter seu pagamento. O carregamento de ouro chama a atenção de Gil Westrum (Scott) – mais tarde sem sua fantasia de circo e, como um bom pistoleiro, ao lado de Judd para dar vez ao trabalho.

Ao fundo, Peckinpah traz o ouro, ainda cedo, nas folhagens que brilham sob o sol, na vegetação que nada tem a ver com a cidade dos mineiros – sem vida, aos gritos, socos e ao cheiro da bebida do bordel da falastrona Kate (Jenie Jackson). O ouro está no velho mundo: o universo ao qual os velhos homens não pertencem mais, o universo, ao fim, transformado com a morte da religião – no velho pai baleado – e do velho pistoleiro.

O protagonista de McCrea, com seu rosto de pedra, tem amargor, como se desde o início anunciasse seu fim. Ele parece ser, sim, o verdadeiro homem religioso do filme, capaz de entender que o mundo não é feito apenas de pessoas boas ou más – ao contrário do pai de Elsa Knudsen (Mariette Hartley), religioso cego e ortodoxo, dominador, vivido por R.G. Armstrong.

O desequilíbrio chegará pela juventude, pelo companheiro jovem de Judd e Westrum, o falador e brigão Heck Longtree de Ron Starr. Peckinpah sorri para essa juventude à beira da carnificina, o que fica ainda mais evidente quando todos se encontram na cidade do ouro, paradoxalmente sem brilho algum.

A essa altura, Elsa ama Heck e não sabe. A moça sai em busca de outro homem, um tal Billy Hammond (James Drury), morador da cidade do ouro e na companhia de seus irmãos. Ao público, o bando passa a visão de Altman, mais tarde, sobre o barulho do mundo – ao passo que o cinema futuro de Peckinpah, de seus carniceiros de Meu Ódio Será Sua Herança, também está todo ali.

Pistoleiros do Entardecer chama a atenção, sobretudo, pela simplicidade. Igualmente, pelas misturas: não deseja se despregar do passado tanto quanto olhar ao futuro. Os mundos confrontam-se à base do tom de voz certeiro do ator de antes, do cara de pedra que não pode confiar em ninguém – à exceção da menina e de seu pai, seres isolados, naturais, distantes do mundo de Judd.

Meio moderno, meio antigo, a casa da pequena menina divide o espaço do terreno com o túmulo de sua mãe, ao qual seu pai segue para rezar. De cabelos curtos, ela usa roupas masculinas. A imagem dos pistoleiros no horizonte traz sua transformação. Ela coloca sua melhor roupa feminina. Ganha o olhar de Heck e a ira do pai, à noite, à sua procura, quando ela é levada pelos encantos do jovem pistoleiro. O impedimento apenas faz com que se deseje, ainda mais, escapar daquela casa e do pai religioso, às vezes violento.

O que ela descobre – mais tarde, quando se casa com Billy – é que ficou na pior. Não importa o que faça, a moça sempre levará a pior. A festa de casamento, em um bordel, no ponto alto de Pistoleiros do Entardecer, anuncia que ela não será apenas de um homem – ou de um irmão. A lei de um juiz embriagado é confrontada pela arma. Judd – mistura de pastor e juiz – coloca em prática sua lei e vai embora com a menina, para devolvê-la ao pai.

A morte da religião e do pai não garante à mulher sua independência, sempre julgada pelos homens. O final é aberto: desmontado, machucado, aparentemente lúcido, o pistoleiro morre como se descansasse. Sai do quadro e deixa a paisagem. A mulher fica por ali, com o rapaz mais jovem, próxima ao pai baleado. O futuro é dos jovens, e de ninguém.

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