Entrevista: Inácio Araújo

Ao ser convidado para relatar os dez filmes que levaria para uma ilha deserta, no livro Filmes, da coleção Ilha Deserta, Inácio Araújo quebrou o protocolo e elegeu 11. Em sua justificativa, ele diz que seria impossível deixar algumas obras memoráveis de fora – filmes da estatura de Rastros de Ódio e A Morte Num Beijo. “Como na Lista de Schindler, me comovem muito mais os milhões que morreram do que os poucos milhares que se salvaram. Façamos por 11”, justifica.

E o último da lista – o décimo primeiro não convidado, o “subversivo” – é justamente Anjos do Arrabalde, de Carlos Reichenbach, morto no último 14 de junho. Com a palavra, o crítico: “Nos filmes de Carlão Reichenbach, o bom e o mau gosto, o homem culto e o cafajeste rematado, o torturado existencial e o vigarista são invariavelmente contíguos, com frequência vivem no mesmo bairro ou rua”.

A entrevista abaixo foi feita via e-mail dias antes da morte de Reichenbach. O crítico da Folha de São Paulo escreveu um texto repleto de emoção sobre o cineasta brasileiro (leia aqui), o que parece raro àqueles que acompanham seu blog e suas críticas em páginas impressas – que, sem dúvida, fazem dele um dos grandes do ofício no Brasil. Alguém duvida?

Antes, entre seus textos famosos, Inácio já havia chorado – em palavras, em tão belas expressões – a dor da perda de um grande cineasta. Falava, naquele caso, de Samuel Fuller, citado na entrevista abaixo. Com exclusividade, aborda também a própria profissão, a situação do cinema brasileiro atual e cita um cineasta que admira – não necessariamente um que ama, como Reichenbach e Fuller.

Houve um tempo em que uma crítica podia mudar o desempenho de um filme na bilheteria. Acha que, hoje, isso ainda é possível?

Não sei se eu concordo com a tua premissa. A função da crítica nunca foi atrair ou repelir espectadores de determinados filmes, mas, na medida das nossas capacidades, refletir sobre cada um deles a partir de nossas reflexões mesmo sobre o cinema e a arte em geral. Por isso, me parece que a queda de influência geral da crítica (não apenas a de cinema) não afeta as bilheterias (na verdade, desde sempre o alcance da crítica nesse particular é restrito a um tipo de filme com pequenos lançamentos e que dependem do prestígio obtido em jornais, festivais etc.), mas me parece que a arte em geral hoje é um assunto mais de mercado, mais de comércio do que outra coisa.

A crítica “crítica” de cinema é uma profissão em extinção?

Ela é menos importante do que já foi, talvez seja menos capaz. Dizer que está em extinção ou não é mero chute. De todo modo, me parece que a internet é um meio que lhe confere certo vigor e capacidade de renovação.

O que forma um bom crítico?

É difícil dizer. Cada um tem uma contribuição a dar: o que já teve contato com a prática, o que não teve, etc. Mas a contribuição dele será necessariamente vinculada à visão de mundo que ele traz. Uma visão muito pobre, mesquinha, acanhada, certamente não favorece essa prática. E, claro, sem um olho não se chega a nada, só se é enganado.

Com o passar dos anos, nesse mundo tão cheio de imagens em que vivemos, seu leitor ficou mais ou menos exigente?

Não sei. Acho que com o tempo o leitor já sabe um pouco o que esperar de cada crítico, já conhece seus gostos, suas opções. Isso é bom, de certo modo, porque mesmo se o espectador não concorda com o meu modo de pensar ele já pode prever o que encontrará no cinema, quando for ver o filme. Por outro lado, o cinema muda sempre, é preciso se atualizar, não imaginar que tudo já foi feito. O modo de exploração do cinema hoje, por exemplo, seria impensável há 20 anos.

Você recebe muita “pedrada” de leitor, seja por carta, seja por e-mail? Lembra de algum caso curioso e que gerou algum debate?

Há pessoas que se identificam mais ao que eu penso, outras menos, outras nada. Isso é normal. Se elas se dão em nível de respeito, isso é bom. Não há nada absoluto, imutável, com toda razão. Cada vez que eu recordo os grandes pensamentos críticos que existiram aqui, que opunham Rubem Biáfora (passou por vários jornais, como Folha da Tarde e O Estado de S. Paulo) a Paulo Emílio (Sales Gomes, crítico e historiador de cinema paulista), eu penso que ambos transmitiram muitos ensinamentos, cada um à sua maneira.

Em texto publicado nos anos 80, você diz que perder Samuel Fuller foi como perder o pai. Qual a importância desse cineasta para sua formação como cinéfilo e crítico de cinema? Alguma lembrança especial?

Ah, foi muito grande. Para a minha geração foi o grande cineasta americano que dizia tudo o que tinha a dizer, que punha a busca da verdade acima de tudo, e essa busca podia ser até meio selvagem, mas era sempre uma luz e também uma contestação, uma demonstração de que se podia fazer cinema fora do cânone, e bem.

No mesmo texto, diz que há diretores que se admira e que se ama. Qual outro diretor que se situa no segundo campo para você?

Digamos que a admiração vem de algo objetivo: o valor, a originalidade, as virtudes de um cineasta. O amor vem de certa identidade com o artista, é algo mais subjetivo. Eu admiro Bergman, mas não o amo. Não quer dizer que ele seja inferior a outros.

Você publicou, em seu blog, um post no qual diz que algumas produções nacionais de sucesso deste novo século reataram a confiança do espectador brasileiro em relação aos filmes feitos aqui. No entanto, acho, essas obras estão próximas da produção televisiva, o que provoca maior identificação com a maioria. Não acha que a televisão, em grande parte, vem pautando nosso cinema?

Eu disse isso, é? De todo modo, concordo inteiramente que quem está pautando o cinema no Brasil é a TV. Ou, podemos expandir: certa política cinematográfica para a qual o importante é a conquista de grandes plateias. Isso só pode ser feito, num país como o Brasil, com uma produção próxima à TV ou às vezes vinda diretamente da TV. Acho que a aposta dessa política, que vem desde o fim do governo Collor, é que através da TV se chegue paulatinamente a criar uma produção cinematográfica que seja ao mesmo tempo popular e de prestígio. Isso me parece um sonho, porque os cineastas, em sua maioria, já não têm formação de cinema. E com esse tipo de política dão menos importância a isso ainda, serão ainda mais irrelevantes do que hoje. Mas espero que eu esteja errado e os governos, certos.

Em outro texto, no blog, você repercute e discute uma crítica de um colega de Folha, o Cássio Starling, sobre o termo “buzz”. É grande mal do cinema atual?

Sim, acho que é o que eu disse acima. Eu não sou contra o marketing, longe disso. Às vezes se associa marketing a mentira, a falsidade. Não é. Marketing é a maneira de identificar o seu público e de chegar a ele. Isso é importante. Agora, o que o Cássio chama de “buzz” não é isso, é essa coisa coordenada, que tem muito a ver com a simpatia de certas pessoas, às vezes, que leva um filme nulo a ser visto como coisa muito importante. Nessa hora é que, me parece, o crítico precisa intervir.

Um filme como Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios não cai na graça do grande público, ao que parece, por motivos óbvios, mas é feito com patrocínio, renúncia fiscal, etc. O papel estatal é importante? Acha possível o financiamento de cinema, no Brasil, sem a presença do Estado?

Não se faz cinema sem que o Estado tenha um papel relevante, de alguma espécie. Pode ser financiamento, como na Europa, pode ser apoio político, como nos EUA. Veja a Argentina, recentemente: um filme que entre com mais de 20 cópias passa a pagar um imposto, que é progressivo: quanto maior o número de cópias, maior o imposto. A justificativa é ótima: para que o público não pense que existe apenas um tipo de cinema! Ora, aqui não se faz nada disso. O público acha que só existe um tipo de cinema. Que o que foge a isso é anomalia. E o governo incentiva filmes que imitam esse “tipo único” e, como não faz nada de consequente, isenta os produtores de todo tipo de risco. Ou seja, está tudo errado.

O que tem te surpreendido no cinema atual? Ainda dá para surpreender um “macaco velho” (palavras do Merten) com tantos anos de estrada?

Bem, quando eu tiver a idade do Merten, o nosso decano, não sei o que vai acontecer. Mas tenho a impressão de que em arte sempre há margem para o inesperado. Hoje ela é menor do que em 1920 ou 1950, claro. Muitas coisas já foram inventadas. E o estado do mundo não é favorável à arte, às artes em geral, a ideia de negócio é que é dominante. Então, existem dois riscos: o de coisas novas acontecerem e você não identificá-las. Ou de tentar ver o novo onde há apenas aparência de novo, mas nada muito profundo. São riscos que sempre corremos, velhos ou novos, e humanos.

Rafael Amaral (04/07/2012)

6 comentários sobre “Entrevista: Inácio Araújo

  1. O Inácio é uma ótima pessoa e grande profissional. Para mim, hoje, é o principal crítico do País, um dos mais importantes de nossa história.

    Tive o prazer de fazer seu curso de história e linguagem cinematográfica, tendo a chance de perceber seu enorme conhecimento sobre a matéria.

  2. Ah, o Inácio, sempre iluminador e apaixonante ouvi-lo.

    Eu só gostaria de comentar uma coisa que ele cita, sobre a qual, inclusive, eu deixei um pitaco no blog dele há quase um ano, quando saiu essa lei na Argentina de taxação de cópias estrangeiras. Há uma celebração inútil com essa lei. A taxa é cobrada das distribuidoras, ao invés de ser cobrada dos exibidores, que é o grande problema na hora dos filmes chegarem à telas (pelo menos aqui na Argentina). A taxa é muito baixa e não faz nem cócegas nos blockbusters – ao passo que pode complicar filmes estrangeiros pequenos. Essa lei não é nada mais que tapar o sol com a peneira, que tentar esfriar os ânimos e não resolver nada. É só ver a quantidade de telas que “The Avengers” ou “Madagascar 3” ocuparam no país, há quase um ano da promulgação da lei: das aproximadamente 800 telas, cada filme tem aproximadamente 300, o mesmo de antes da lei. Enfim, é louvável a tentativa e a preocupação, mas muitíssimo mal implementada, só blá-blá-blá do INCAA (Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, uma espécie de ANCINE argentina).

    Abraços e parabéns pela entrevista!

    1. Muito obrigado pelos pertinentes comentários, Natália. Acho que as questões relacionadas à distribuição – seja no Brasil, seja na Argentina – passam longe de algo justo. Grande abraço, valeu a visita.

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